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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um português na Singularity University





Pode-se criticar a SingularityU em certos aspectos. Eu, por exemplo, acho que os cursos muito curtos e caros, e a universidade em alguns aspectos lembra mais uma universidade corporativa (no estilo da McDonald's University) que uma universidade propriamente dita. Por outro lado, falta às grandes e tradicionais universidades um ingrediente principal: a inspiração e entusiasmo para transformar positivamente o mundo. Pelo único fato de inspirar e mobilizar inteligências do mundo inteiro a trabalharem por um futuro melhor, de colocar grandes inteligências a serviço da generosidade, por ser um poderoso veículo de inspiração, esta jovem e dinâmica instituição merece minha admiração! (vai aqui minha admiração pelo  trabalho de Nuno Martins! -- veja o vídeo).

Acho que as grandes, as maiores realizações da humanidade foram feitas assim: por pessoas altamente motivadas e impelidas por um ideal (resgatei a memória de uma antiga leitura de José de Alencar: “a razão cardeal de toda a superioridade humana é sem dúvida a vontade. O poder nasce do querer. sempre que o homem aplicar a veemência e a perseverante energia de sua alma a um fim, ele vencerá os obstáculos e, se não atingir o alvo, pelo menos fará coisas admiráveis. Mas para que o homem se entregue assim a uma idéia e se cative a um pensamento, é necessário ser atraído irresistivelmente, ser impelido pelo entusiasmo."). É exatamente o que a SingularityU está tentando promover.

Já é meio antigo, mas vale a pena ver de novo a palestra no TED em que a SingularityU foi lançada (é possível escolher legendas em Pt-br).

Feliz, grande, melhor, mais saudável e inteligente 2011 para todos! Um Fabuloso Futuro!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Histórias transhumanistas: o único meio de atingir as estrelas é vivendo mais

Visão privilegiada da Via Láctea no céu seco do Arizona, EUA. O único meio de atingir as estrelas é vivendo mais, muito mais.

Arizona, década de 90. Dois irmãos se deslumbram com visões noturnas da Via Láctea e sonham com viagens de exploração espacial. No entanto, são inteligentes e realistas o bastante para admitirem que, dado o ritmo do progresso da exploração espacial, não haveria tempo, no curso de suas vidas, para viagens espaciais: provavelmente ainda demorará uma década ou mais só para o homem retornar à Lua (feito este que deverá ser realizado pelos chineses; uma viagem a Marte é ainda mais remota). Ademais, mesmo que se acelerasse o ritmo das viagens espaciais, como ocorreu na época da Guerra Fria, você precisaria, na melhor das hipóteses (com naves que viajassem muitíssimo mais rápido que as de hoje), de cerca de um século só para fazer a viagem de ida para a estrela mais próxima. Definitivamente, seres humanos não foram desenhados para viagem espaciais.

O que fazer, então? Talvez deixar o sonho da exploração espacial para lá e tocar a vida, fazendo outra coisa. Ganhar dinheiro e se dedicar à aviação ou aos foguetinhos amadores como hobby. Mas, espere aí. E se... Não, isso é impossível! Mas não custa pensar... e se descobríssemos tudo sobre biologia molecular de modo que pudéssemos reescrever nosso DNA para vivermos uma vida longa o bastante (de preferência, indefinidamente longa, sem envelhecimento) para que pudéssemos, então, realizar explorações espaciais sem pressa?

"Roteiro barato de ficção científica", poderia passar pela cabeça de algum leitor enquanto torce o nariz para este post. Mas esta é a história real dos irmãos Michael and William Andregg ("brothers Andreggs").

Trabalhando por cinco anos, de maneira independente e com pouca instrução ou orientação formal, Michael e William desenvolveram uma forma inovadora de manipulação de moléculas individuais em uma plataforma que permite um novo tipo de seqüenciamento de DNA muito mais barato e rápido que as técnicas tradicionais. Os irmãos fundaram uma empresa, a Halcyon Molecular, e receberam alguns milhões de dólares de investimento (dentre seus investidores, encontra-se o lendário Peter Thiel), inclusive US$2,5 milhões do  National Institutes of Health (NIH) dos EUA como parte de um programa que visa desenvolver senquenciamento genético de baixo custo (os Andreggs acreditam que um completo entendimento do genoma, com a transformação da biologia molecular em uma tecnologia da informação, é indispensável para terapias que possam radicalmente estender a longevidade humana). Colaboradores da Halcyon Molecular também publicaram um trabalho científico que ganhou a capa da revista Nature. Confira trecho de entrevista de William Andregg ao TechCrunch:



"Não há nada inevitável sobre o nosso sucesso. Todo mundo que tem talento suficiente para fazer alguma contribuição deveria estar tentando ajudar, em todas as frentes, por qualquer meio ético, como se fosse uma questão de vida ou morte -- porque é." -- William Andregg

TechCrunch: Qual é sua opinião sobre longevidade e a extensão da vida em comparação com as de Aubrey de Grey e Ray Kurzweil?

William Andregg: "Partes do projeto SENS devem ser urgentemente financiadas e testadasDito isto, eu trabalho com sequenciamento, e não com SENS, porque a nossa abordagem para a cura do envelhecimento busca primeiro transformar a biologia em uma ciência da informação (...).  Acredito que podemos chegar a um completo entendimento da biologia humana em apenas algumas décadas, o que é mais parecido com o cronograma do Kurzweil. Por outro lado, se o cronograma do SENS for perseguido hoje, poderá salvar milhões de vidas antes de se conquistar um total entendimento da biologia que seja aproveitável para nós. É bom apostar em coisas diferentes.

"Quanto ao Kurzweil, não quero parecer injusto e eu gostaria de ouvir seus pensamentos sobre isso, mas tenho receio de que seus livros desmotivem as pessoas que poderiam contribuir para a causa, talvez dando-lhes a impressão de que a Singularidade não só vai chegar como é inevitável. Alimente-se direito, faça exercícios físicos, tome essas pílulas e, não se preocupe, esses cientistas inteligentes e trabalhadores vão resolver tudo para você. Em contraste, uma grande qualidade de Aubrey como líder é que ele exorta as pessoas a se mexerem e dar uma contribuição.

"Nós podemos não sobreviver nos próximos 20 anos. Nós podemos nunca curar o envelhecimento. Não há nada inevitável sobre o nosso sucesso. Todo mundo que tem talento suficiente para fazer uma contribuição deveria estar tentando ajudar, em todas as frentes, por qualquer meio ético, como se fosse uma questão de vida ou morte -- porque é.
"E os mais talentosos devem enviar seus currículos imediatamente a Halcyon."

Colaboradores da Halcyon Molecular ganharam a capa da Nature com o recente artigo “Atom-by-atom structural and chemical analysis by annular dark-field electron microscopy”.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Transhumanismo e generosidade

Desde a antiguidade a generosidade (a disposição de consumir os próprios recursos em benefício alheio) é considerada um dos atributos das pessoas virtuosas. Para Aristóteles, é o meio termo entre a avareza e a extravagância. E não é difícil entender o porquê desta virtude ser tão bem cotada: a generosidade provavelmente possui raízes profundas na mente humana, pois se trata de um importante fator de agregação e fortalecimento do tecido social. 

Talvez não seja exagerado afirmar que a maior parte do progresso humano deve-se a atos de generosidade social. Pessoas que dedicaram seu tempo, suas energias, suas vidas, suas fortunas a uma causa que consideraram maior que si mesmas, que transcendiam suas existências singularmente consideradas, empurrando o mundo para frente (a imagem que me vem a mente, aqui, é a Howard Hughes retratada no filme "O Aviador". E, por falar em avião, poucos exemplos seriam mais ilustrativos do que o nosso Santos Dumont).

No movimento transhumanista, é possível encontrar um bando dessas pessoas geniais e generosas trabalhando juntas. Pessoas que estão destinando seu tempo, suas vidas e seu dinheiro a transformar positiva e radicalmente a existência humana.

Nesta semana, o empresário Peter Thiel (cofundador do PayPal e investidor inicial do Facebook, um bilionário  que está não tem medido esforços para acelerar a chegada de um futuro radicalmente melhor) organizou um jantar com outros magnatas do Vale do Silício destinado a arrecadar doações para organizações relacionadas à temática transhumanista, como a SENS Foundation, o Seasteading Institute e a Humanity+, dentre outros. O próprio Thiel tirou do bolso alguns milhões de dólares em benefício da SENS Foundation e meio milhão para o Seasteading. No jantar, foi anunciado que o empresário e filantropo Jason Hope doou meio milhão de dólares para a mesma SENS Foundation. Nas palavras do próprio Jason Hope:

"Tenho um grande interesse na Fundação SENS e o trabalho do Dr. Aubrey de Grey há algum tempo. Acredito que seu trabalho é essencial para o avanço da medicina humana e sua abordagem para o problema global do envelhecimento humano e suas doenças associadas (doença de Alzheimer, aterosclerose, diabetes, etc) é o único caminho a percorrer. Seu trabalho e o trabalho dos outros que o apoiam irá conduzir a completa redefinição e reorganização dos cuidados de saúde e indústrias farmacêuticas e de biotecnologia tal como as conhecemos hoje. O avanço da biotecnologia do rejuvenescimento não só é extremamente importante, mas é o futuro. Tenho a honra de apoiar a Fundação SENS nos seus esforços, e espero que o meu apoio ajuda a gerar resultados mais rápidos para toda a humanidade."

Jason Hope: meio milhão de dólares para a SENS Foundation.  Nossos filhos e netos (e, quem sabe, alguns de nós) se lembrarão destes pioneiros para sempre.

Eu me sinto grato a Aubrey, Thiel, Jason e outros por essas ações extraordinárias. Existe muita gente rica no mundo. E, certamente, a grande maioria delas está mais preocupada em dispender seus recursos alimentando a própria luxúria do que em fazer a ciência avançar. Um pequeno (porém crescente) número de pessoas está realizando trabalhos com o potencial de melhorar radicalmente as condições de vida de bilhões de seres humanos, inclusive as minhas, suas e as de nossos filhos. Contribuindo, inclusive, para melhorar a vida mesmo daqueles que ridicularizam e desdenham de propostas como curar o envelhecimento e a inevitabilidade da morte. Talvez este seja o ápice da generosidade: doar até para aqueles que não querem, não entendem, nunca serão gratos mas que, certamente, utilizarão tais recursos quando eles estiverem disponíveis, já que, como disse Machado de Assis, "a vida é o maior benefício do universo, e não há mendigo que não prefira a miséria à morte". 

Machado de Assis pela boca de Brás Cubas: "não há mendigo que não prefira a miséria à morte". Sejamos francos: quando as tecnologias que nos tornem mais inteligentes, saudáveis e felizes estiverem disponíveis, será que os críticos dos transhumanistas e os que hoje desdenham do movimento, também as combaterão?

Eu apreciaria muito se no Brasil tivéssemos pessoas com esta visão e esta generosidade, mas estas aves raras que gorjeiam na Califórnia não gorjeiam por aqui (para fazer justiça às exceções, um caso raro e significativo de generosidade brasileira é a de Lily Safra, que levou à criação do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, que,  aliás, desenvolve várias pesquisas de interesse para os interessados na evolução humana). Entre nós, as preocupações  da Casa Grande estão menos voltadas para eliminar o sofrimento humano e propagar inteligência e felicidade do que para ganhar dinheiro fácil vivendo de juros e rendas. A classe média -- que carrega este país -- pode estar desvencilhada desta mentalidade. Podemos contribuir com nossos modestos (individivudalmente) recursos (um pouco de tempo aos fins de semana, redes sociais, o saldo do AdSense, uma doação anual etc.) para acelerar estas mudanças. Lutar por um futuro radicalmente melhor para nós, nossos filhos e até para os estranhos. Não apenas receber. Contribuir também e acelerar as mudanças.

Ecoando, mais uma vez, David Pearce:

"Se queremos viver no paraíso, teremos nós próprios de o produzir. Se queremos a vida eterna, então teremos de reescrever o nosso código genético cheio de erros e tornarmo-nos divinos. 'Possa tudo o que vive ser libertado do sofrimento', afirmou Gautama Buda. É um sentimento maravilhoso. Infelizmente, só as soluções de alta tecnologia podem erradicar o sofrimento do mundo vivo. A compaixão por si só não basta."

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Até que ponto as previsões de Kurzweil são boas mesmo?

Immanuel Kant, para quem a máxima do Iluminismo poderia ser "Sapere Aude!" ("Ouse saber!" ou "Ouse pensar com sua própria inteligência!"). Antes de alguém pretender aumentar a própria inteligência, precisa aproveitar toda a inteligência já disponível entre as orelhas e empregá-la, tão bem quanto possível, na árdua tarefa de pensar com a própria cabeça.  

Gostaria de escrever um dia com mais detalhes sobre as previsões de Kurzweil para o futuro da humanidade (um bom resumo delas pode ser encontrado aqui: http://goo.gl/ev8qU).

Antecipadamente, o que posso dizer é que tendo a concordar com a visão geral de Kurzweil sobre o futuro (o surgimento de superinteligências artificiais e a possibilidade de seres humanos transcendermos nossas limitações biológicas e atingirmos um estado de civilização cuja melhor descrição seria a utopia -- embora Kurzweil pareça não gostar do termo e já adverte: surgirão novos tipos de problemas). As visões do grande inventor são para mim plausíveis e instigantes e vejo Kurzweil como uma mistura de Thomas Edson com Júlio Verne.. Na verdade, acho que são as melhores previsões de futuro remoto que conheço e que fazem sentido -- o que não significa que sejam perfeitas.

No entanto, como o futurismo é uma mistura de arte da aproximação e ciência (e talvez esteja mais próximo daquela), tenho dúvidas quanto ao timing de suas previsões: será que elas se concretizarão tão rapidamente quanto ele propõe? Tendo a pensar que, em muitos casos, elas demorarão um pouco mais (eu chutaria: algo em torno de uma ou duas gerações, isto é, de 20 a 40 anos ou mais).

Para quem quiser se beneficiar de uma visão crítica das previsões de Kurzweil, vale a pena conferir o artigo Ray Kurzweil's Slippery Futurism . O artigo não nega o brilhantismo de Kurzweil, mas sugere que várias de suas previsões, se vistas de perto, não são tão boas assim (ou são óbvias ou ambíguas demais -- problema comum às profecias). O artigo é bom, mas, cultivar o hábito de exercitar o espírito crítico é ainda melhor, em razão do que recomendo também a leitura dos comentários dos leitores daquele artigo (muitos defendendo o ponto de vista de Kurzweil com bons argumentos) e, ainda, do documento "How my predictions are faring" ("Como minhas previsões estão se saindo") publicada pelo próprio Kurzweil em que ele defende suas previsões (http://www.kurzweilai.net/predictions/download.php).

Em "How my predictions are faring", Ray Kurzweil, defende que 89 das 108 previsões que ele fez estavam  totalmente corretas até o final de 2009, 13 estavam "essencialmente correta" (para um total de 102 em 108), outras 3, parcialmente corretas e 3 erradas, a mais de dez anos pela frente de concretização, contabilizando um total de acerto de 89%.

Eu não li todo o documento, mas, pela a olhada que dei, não diria que houve 89% de acertos, até por conta da ambiguidade que as palavras em alguns casos proporcionam. Mas, algo me pareceu claro: ele mais acerta do que erra (eu diria: seguramente uns 70%) e, mesmo quando erra, talvez se possa dizer que a visão geral estivesse correta. Por exemplo, uma das profecias consideradas erradas é a de que em 2009 existiriam carros que se dirigem sozinhos. Era um grande desafio da engenharia, mas, se não me falha a memória, foi exatamente em 2009 que um desses carros venceu um prêmio oferecido pelo DARPA, nos EUA. E, em 2010, a imprensa dos EUA flagrou os "Google  Driverless Cars", carros do Google sem motorista que entravam e saiam das instalações da empresa sem que o motorista precisasse colocar as mãos no volante. A profecia estava errada (nós não temos esses casos) quanto disseminação da tecnologia, mas não a sua possibilidade de implementação técnica, que pareceria um sonho na década de 90, mas foi atingida.

"Google Driverless Car": o carro projetado por engenheiros do Google que dirige sozinho, em 2010. Kurzweil previu nos anos 90 (quando a tecnologia não existia) que teríamos um destes. De fato, não temos, mas a tecnologia apareceu e em 2010 carros que se autodirigem já tinham percorrido 140.000,00 milhas na Califórnia. Veja um vídeo aqui: Google Driverless Car.

Um ponto importanet do artigo da IEEE é que uma apreciação satisfatória das previsões requeriria que elas fossem quantificadas, o que lhes permitiria serem falseadas ou confirmadas facilmente.  Isso seria ótimo, mas isso, talvez, vá além do ponto interessante (e das reais possibilidades) em Kurzweil: não se trata de saber em termos preciso qual engenhoca vai estar disponível, mas saber que existem certos índices que tem apresentado crescimento padronizado, na forma de uma curva exponencial , isto está ocorrendo há muito tempo, de maneira ininterrupta e podemos tirar consequências importantes disto.

Transhumanistas costumam apontar que as raízes do transhumanismo estão fincadas no racionalismo humanista (confira aqui: A History of Transhumanist Thought). Sendo esta invocação autêntica, o pensamento transhumanista (mesmo o ocasional e despretensioso de um blog!) deve sempre partir da máxima kantiana do racionalismo humanista: "Sapere Aude!" (que traduz: "Ouse saber!" "Ouse pensar com sua própria inteligência!"), o que tem por consequência mais óbvia e imediata a rejeição da disposição para seguir cegamente líderes. Quaisquer tendências nesse sentido, por mais tênues que sejam, devem ser vistas com desconfiança, mesmo em se tratando de um "profeta do bem", como penso ser o caso de Ray. Vamos chamar as coisas pelo nome: seguir líderes cegamente é uma tremenda burrice e uma das principais causas dos grandes problemas da humanidade. 

Moral da história: antes de ser um transhumanista é preciso ser racional, com as ferramentas do pensamento que já se encontram há disposição há uns 400 anos: é preciso manter a mente aberta e cultivar o espírito crítico, cético e independete (aliás, o espírito crítico é um bom aliado do ceticismo, pois este também não é indefeso ao erro e ao exagero). Antes de alguém querer aumentar a própria inteligência, precisa aproveitar o bocado de inteligência já disponível entre as orelhas e empregá-la, tão bem quanto possível, na árdua tarefa de pensar com a própria cabeça. Esta tarefa é sempre indelegável. Eis é o ponto de partida do transhumanismo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Atualização de "Singularity is Near"



Quem gosta de análises realistas sobre o futuro certamente irá apreciar "Singularity is Near", o livro de Ray Kurzweil responsável pela explosão do movimento transhumanista. Os excessivamente céticos, mas apreciadores de uma boa ficção cientifica, terão momentos de leitura agradável e instigante. Infelizmente, o livro ainda não tem tradução para o português (e se você não lê em inglês, pode se beneficiar da leitura de "A Era das Máquinas Espirituais", que traz basicamente as mesmas ideias, porém de maneira mais sintética e menos fundamentada).

Devo confessar -- junto com a maioria dos outros leitores de "Singularity is Near" -- que a leitura deste livro é de grande impacto. Você pode detestá-lo, pode passar a venerá-lo, mas dificilmente alguém mantém-se indiferente a este livro. Trata-se de um livro que evoca sentimentos e ideias profundas, ligadas a questões centrais da existência humana individual ou coletiva. Se fosse para resumir em uma frase este livro, eu arriscaria: a crença no poder irresistível das ideias para transformar o mundo.

Para aqueles que leram o livro (que é de 2005) e estão interessados em um upgrade, na palestra abaixo, proferida na Singularity University, Kurzweil se propõe exatamente a fazer isso: rebater algumas críticas (o que faz rapidamente, de passagem) e, o que é mais interessante, mostrar o que ocorreu com os vários gráficos apresentados no livro nos quatro anos após sua publicação (a palestra, salvo engano, foi gravada em 2009). Essa palestra também será útil para aqueles que assitiram a entrevista de Kurzweil na GloboNews e querem saber mais sobre a análise que Raymond Kurzweil faz do futuro da humanidade. Felizmente, para maior divulgação, esta nova palestra foi legendada pela FIAP.

A palestra encontra-se aqui:

Vale a pena assistir e divulgar. Para quem quiser twittar:
Em palestra, Ray Kurzweil faz atualização de Singularity is Near http://goo.gl/Rqed0

sábado, 20 de novembro de 2010

Transhumanismo é tema de colóquio na Universidade Federal de Santa Maria

Infelizmente não divulgamos aqui a tempo... mas, pela importância, vale a pena registrar o evento na UFSM (RS). 


Transhumanismo é tema de colóquio nesta sexta-feira 


Planetário da Universidade Federal de Santa Maria, RS.



"O trabalho desenvolvido por Pearce é considerado 'de ponta' em universidades como Oxford, entretanto desconhecido no Brasil. Nesse caso, Santa Maria é sede de um evento histórico para pesquisadores das ciências sociais, humanas e naturais" (fonte: Universidade Federal de Santa Maria)


O curso de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) apresenta o 3º Colóquio de Ética e Ética Aplicada com o tema: evolução e transumanismo. O transumanismo pode ser visto como o uso das tecnologias latentes para o aperfeiçoamento do ser humano de maneira cognitiva, genética e moral. Tem como fato a evolução das espécies e seleção natural (darwinismo), desenvolvendo uma necessidade de posição do homem frente à construção do modelo transumanista e de um estágio pós- humano.



Além das apresentações acadêmicas nacionais, a principal atração do colóquio é o filósofo inglês David Pearce (BLTC Research – Brigthon, Inglaterra), pesquisador ícone no assunto.

David Pearce, que permanece em Santa Maria até amanhã, ministra palestra nesta sexta-feira, às 10h45min, sobre Projeto Abolicionista. O trabalho desenvolvido por Pearce é considerado “de ponta” em universidades como Oxford, entretanto desconhecido no Brasil. Nesse caso, Santa Maria é sede de um evento histórico para pesquisadores das ciências sociais, humanas e naturais.

O professor doutor Ricardo Bins Di Napoli é o responsável pelos estudos em ética na UFSM. O 3º Colóquio de Ética e Ética Aplicada, que iniciou ontem, dia 17, segue até amanhã, 19 de novembro, das 8h45min às 12h e das 14h às 17h30min, no Centro de Ciências Sociais e Humanas (prédio 74) da UFSM.
Mais informações com Pablo Rolim pablo.rolim@hotmail.com do diretório acadêmico da filosofia DaFil ou com Gabriel Garmêndia garmendia_gabriel@yahoo.com.br, acadêmico pesquisador em ética aplicada.

Programação do evento:
* 19 de novembro, sexta-feira:
Turno da manhã
8h45min: Recepção e Abertura
9h: Vídeo-conferência ou Web-conferência.
Tema: Is conscientious objection in medicine morally justifiable?
Palestrante: PhD. Student Francesca Minerva (Università di Bologna)
10h15min: Debate
10h30min: Intervalo (Coffee Break)
10h45min: Mini-curso presencial.
Tema: Projeto Abolicionista (III)
Palestrante: Sr. David Pearce (BLTC Research – Brigthon, Inglaterra)
11h45min: Debate
12h: Encerramento das Atividades Turno Manhã
Turno Tarde
14h: Vídeo - Conferência
Tema: Desafios do transumanismo a uma concepção naturalista sobre a normatividade.
Palestrante: Prof. Dr. Marco Antonio de Azevedo (UNISINOS)
15h30min: Intervalo
15h45min: Mesa Redonda de Encerramento.
Tema: Evolução, Genética e Transumanismo.
Palestrantes: professores Dr. Élgion, Dra. Lia Reiniger; e Ursula Matte (UFRGS).
Coordenador da mesa: professor Dr. Noeli Dutra Rossatto (UFSM)
17h15min: Debate
17h15min: Encerramento das Atividades Turno Tarde

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Engenharia do Paraíso

"Se queremos viver no paraíso, teremos nós próprios de o produzir." Não, definitivamente você não vai encontrar 70 virgens no céu. Se realmente quiser , vai ter que convencê-las por aqui mesmo.




 Para quem não conhece bem o movimento transhumanista, vale a pena se inteirar das ideias dos principais pensadores do movimento, como o filósofo David Pearce. Transhumanistas não são nerds que inventaram uma nova religião high-tech para superar o problema da morte (como argumentei no meu primeiro post, pessoalmente vejo o movimento transhumanista como um elo entre aspectos positivos da religião e a ciência). Transhumanistas simplesmente apontam que o rei está nu, chamam as coisas pelo seu nome: a vida é curta demais, a morte é ruim e indesejável e o envelhecimento... ah, este equivale a uma lenta e torturante degradação física e mental dos indivíduos, sendo, portanto, inaceitável
O movimento transhumanista é muito diversificado e, claro, como qualquer movimento também possui seu lado histriônico: se procurar, você vai encontrar dentre os transhumanistas geeks que pensam ter encontrado uma religião high-tech. Essa diversidade, no entanto, parece ser bem vista,  é um sinal de tolerância e da ausência de dogmas entre os transhumanistas, pessoas diversificadas que compartilham a crença de que a tecnologia pode melhorar radicalmente nossas vidas.

Para mim, o melhor aspecto do movimento é sua fundamentação filosófica, derivada do humanismo e dos melhores aspectos da ética utilitarista (transhumanistas tendem a ser ateus ou agnósticos e movidos pela ética da utilidade), sua inconformidade e preocupação em promover o bem-estar e eliminar o sofrimento. É possível ver tudo isso nas idéias de David Pearce:
"Se queremos viver no paraíso, teremos nós próprios de o produzir. Se queremos a vida eterna, então teremos de reescrever o nosso código genético cheio de erros e tornarmo-nos divinos. 'Possa tudo o que vive ser libertado do sofrimento', afirmou Gautama Buda. É um sentimento maravilhoso. Infelizmente, só as soluções de alta tecnologia podem erradicar o sofrimento do mundo vivo. A compaixão por si só não basta." (David Pearce)

Essas ideias ganharam o nome de "engenharia do paraíso".

Ambicioso demais? Talvez. Mas há milhares de pessoas extremamente inteligentes trabalhando nisso exatamente agora. Transhumanistas não só chamam as coisas pelo nome. Eles também arregaçam as mangas.
  
Vale a pena ler e divulgar a entrevista completa de David Pearce e Nick Bostrom:

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Suplementação vitamínica e mineral para o cérebro

Abaixo, a tradução de trecho do Capítulo 2 (“BRAIN AND SLEEP”) do Livro “TRANSCEND - nine steps to living well forever” (de Ray Kurzweil & Terry Grossman), que traz informações sobre suplementação para o cérebro (dentre outras dicas). O livro pode ser importado pela Livraria Cultura ou pelo site Amazon.com. Antes de ler este livro, no entanto, recomendamos a obra anterior dos mesmos autores “Medicina da Imortalidade”.
Os três primeiros capítulos (em inglês) do livro foram gratuitamente disponibilizados pelos autores aqui: http://www.rayandterry.com/transcend/chapters.shtml . Se você não tem fluência em inglês, ainda assim pode ler os livros com ajuda do novo Tradutor do Google (que nos ajudou a traduzir o trecho abaixo).

 *     *     *

Estilo de Vida Saudável, cérebro saudável

Como já discutimos, em muitos aspectos, você é o que você pensa. Mas o velho lema de que você é o que você come também é verdadeiro. Além de desafiar seu cérebro, as nossas recomendações dietéticas, conforme descrito nos capítulos 11 e 13, constituem sua primeira linha de defesa para manter um cérebro saudável. Seu cérebro é feito de 60% de gordura e, por isso, consumir gorduras saudáveis é especialmente importante para a saúde do cérebro. Ambos EPA e DHA, os principais componentes da gorduras omega-3 encontrados em peixes, são componentes importantes no tecido cerebral. Inflamação (superativação do sistema imunológico) é um acelerador de grandes de envelhecimento do cérebro, por isso as nossas recomendações dietéticas que visam reduzir inflamação (tais como evitar carboidratos dealto índice glicêmico, tais como alimentos com açúcar e amido) são também importantes para a saúde do cérebro.
Foi demonstrado em estudos duplo-cego controlado com placebo que os seguintes nutrientes do cérebro apresentam benefícios significativos para a saúde do cérebro, tal como citado em importantes revistas médicas, como a Nature:


Suplemento
Dosagem recomendada
Esclarecimentos e dicas
(esta coluna nao consta no livro de Kurzweil)
Vinpocetina
10 miligramas duas vezes por dia
Trata-se de um remédio barato e facilmente encontrado nas farmácias brasileiras.
Fosfatidilserina
100 mg duas vezes ao dia durante 1 mês, diminuindo para
100 miligramas diários a partir daí
É encontrada na soja e, de forma mais concentrada (porém não pura) na lecitina de soja. A lecitina de soja da Sundown apresenta 1200 miligramas, mas, como dissemos, não é pura. A única informação (a respeito de outro produto) que encontramos sobre as concentrações presentes na lecitina de soja são as seguintes: “Cada cápsula de 500mg de Lecitina de Soja contém 41,4mg de Fosfatidilcolina, 36,8mg de Fosfatidiletanolamina, 23,0mg de Fosfatidilinositol e 4,6mg de Fosfatidilserina.”
Acetil-L-carnitina
de 500 a 1.000 miligramas duas vezes por dia
Não encontramos este produto no Brasil. Se você encontrou, pode compartilhar com as demais pessoas comentando o blog.
EPA / DHA
1.000 a 3.000 miligramas diárias de EPA
700 a 2.000 miligramas por dia de DHA
É popularmente conhecido como “Ômega 3”. No Brasil, uma marca conhecida é a Sundown, cujo comprimido contém
540miligramas de EPA e 360  nmiligramas g DHA. Logo, é preciso tomar pelo menos dois comprimidos desta marca.
Fosfatidilcolina
900 miligramas 2-4 vezes ao dia
Também presente na lecitina de soja.
SAMe
200-400 miligramas duas vezes por dia
Não encontramos este produto no Brasil. Se você encontrou, pode compartilhar com as demais pessoas comentando o blog.



Vinpocetina, um suplemento natural derivado da planta pervinca, aumenta o fluxo sanguíneo para o cérebro, assim como aumenta a produção de adenosina trifosfato (ATP), fonte energética do cérebro. Tem demonstrado melhorar a memória de pessoas com memória normal, assim como aqueles com comprometimento da memória.

Fosfatidilserina é um constituinte natural da membrana celular, mas é encontrados em concentrações elevadas, especialmente no cérebro. A suplementação com fosfatidilserina retarda a perda de memória e tem sido mostrado para inverter perda de memória em alguns pacientes com declínio de memória relacionada à idade. Ela também diminui níveis de cortisol, um hormônio principal do envelhecimento.

Acetil-L-carnitina é uma substância natural que fortalece a mitocôndria, as fontes de energia dentro da célula. Ele também protege o cérebro do envelhecimento por abrandar a inflamação do tecido cerebral.

Ginkgo biloba tem sido um grampo da medicina chinesa há milhares de anos. Ela aumenta o fluxo sanguíneo para o cérebro, e vários estudos mostram que reduz a perda de memória a curto prazo em idosos. Ginkgo biloba é uma droga receitada na Europa mais do que qualquer outra substância farmacêutica para a perda de memória.

EPA e DHA são os principais componentes de gorduras omega-3 e são ambos encontrado em altas concentrações no tecido cerebral. Ambos ajudam a manter as membranas celulares do cérebro flexível. Como mencionado, o cérebro é composto por 60% de gordura e quando EPA e níveis de DHA são insuficientes, o cérebro vai substituir as gorduras menos desejáveis, tais como gorduras omega-6 e até mesmo o perigoso ácidos graxos-trans. Quando isso acontece, membranas celulares perdem sua flexibilidade e a transmissão de sinais entre neurônios torna-se prejudicada. Muitos estudos têm demonstrado uma melhora do humor e alívio de sintomas como depressão e ansiedade com a suplementação com a EPA/DHA.

Fosfatidilcolina (PC), como discutido no Capítulo 2, é um componente chave da membrana celular de todas as nossas células, incluindo células do cérebro. Estudos mostraram que a suplementação com o PC pode ajudar com a memória e o aprendizado em seres humanos sem deficiência mental.

S-adenosil-metionina (SAMe) é um derivado natural de um aminoácido normalmente produzida pelo organismo, e desempenha um papel na metilação (ver Capítulo 5). Níveis do mesmo no organismo, muitas vezes se esgotam na meia-idade. Múltiplos ensaios clínicos têm demonstrado que ele oferece benefícios substanciais para pacientes com depressão. Este efeito ocorre de forma relativamente rápida, ao contrário do necessário para elevar os níveis na corrente sanguínea, que acompanha alguns medicamentos para a depressão. É, portanto, uma forma eficaz, natural e tratamento rápido de ação para a depressão leve. Testes em humanos também têm demonstrado benefícios para o fortalecimento do fígado e para o alívio da osteoartrite.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

É possível contratar a Alcor Life Extension no Brasil?

 “Não dá para fazer tudo o que eu quero em uma vida só. Viver é muito bom” - Valcinir Bedin, médico brasileiro cliente da Alcor Life Extension

De acordo com o que sugere uma reportagem da Revista Época, sim, é possível. E os preços, inclusive, são razoavelmente módicos, acessíveis pelo menos à classe média:

"Todo mês, o dermatologista Valcinir Bedin, 55 anos, de São Paulo, envia, religiosamente, US$ 100 a uma seguradora americana. Neste mês, quando completa 18 anos de adesão, terá desembolsado US$ 21,6 mil (cerca de R$ 40 mil) para sustentar um desejo inusitado: o de ser congelado logo após sua morte e, depois, ressuscitado. Assim que falecer, a indenização de seu seguro será entregue ao beneficiário da sua apólice, a empresa americana de criogenia Alcor, em Scottsdalle, no Arizona, nos EUA. “Eles receberão US$ 150 mil para manter meu corpo congelado até que se descubra a cura para a enfermidade que me vitimou. Pedi então para ser descongelado, revivido e tratado”, explica. Bedin anseia por uma segunda chance. “Não dá para fazer tudo o que eu quero em uma vida só. Viver é muito bom”, diz. As origens dessa escolha são antigas. Desde a adolescência, Bedin buscava uma opção para amenizar o impacto de acreditar que não há nada depois da morte."


Mas como seria possível resgatar alguém de volta?
Há poucos anos, soaria uma piada a pretensão de discutir cientificamente este assunto. Hoje, no entanto, uma das tecnologias que poderiam permitir isso começa a se tornar realidade:
Para preservar as sinapses da destruição, há alguns anos a Alcor substituiu o congelamento direto do cérebro  por um sofisticado processo de vitrificação (conforme reportagem do Fantástico sobre o assunto).  Muitos desafios técnicos e filosóficos ainda deverão ser enfrentados.No entanto, começamos a vislumbrar uma era em que, além das crenças religiosas e da resignação, haverá alternativas tecnológicas para o homem enfrentar a questão da própria morte. E estas alternativas mudarão profundamente a condição humana.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cientistas propõem viagem sem volta a Marte

Voos tripulados
Quando Barack Obama tomou posse, ele afirmou que era preciso rever os projetos de voos tripulados da NASA.
Embora tenha dito que poderia ser possível enviar o homem a Marte até 2030, o efeito mais imediato da nova política espacial da NASA foi ocancelamento do projeto de retorno à Lua.
Com um mero passeio lunar cada vez mais distante, e com as decepcionantes dificuldades que a própria NASA demonstrou na execução do projeto Constelação, que nada mais era do que um upgrade da histórica Apolo, ir a Marte ou a qualquer outro planeta parece um sonho cada vez mais distante.
Viagem sem volta a Marte
Mas talvez haja uma alternativa, uma missão que seja mais simples e mais barata e que viabilize a chegada do homem a Marte.
Para isso, basta que seja uma viagem sem volta, ou seja, uma viagem para astronautas que aceitem o desafio de ir para Marte sem qualquer plano de voltar à Terra.
Esta é a proposta de Dirk Schulze-Makuch, da Universidade do Estado de Washington, e do renomado Paul Davies, da Universidade do Estado da Flórida, ambas nos Estados Unidos.
Eles acabam de delinear como seria uma missão sem volta a Marte em um artigo publicado na revista científica Journal of Cosmology, chamado To Boldly Go: A One-Way Human Mission to Mars - Para Audaciosamente ir: Uma Missão Humana sem Retorno a Marte, em tradução livre. O "audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais foi antes" é a marca registrada do seriado Jornada nas Estrelas.
Os dois físicos consideram que, embora tecnicamente factível, uma missão tripulada de ida e volta a Marte é improvável num horizonte de tempo razoável - principalmente, segundo eles, porque seria um projeto incrivelmente caro, tanto em termos financeiros quanto em sustentação política.
E, como a maior parte do gasto está ligado à necessidade de trazer os astronautas de volta em segurança, uma missão só de ida poderia não apenas reduzir os custos a uma fração do projeto inicial, como também marcar o início da colonização humana de longo prazo do planeta.
Cientistas propõem viagem sem volta a Marte
Uma missão só de ida a Marte seria o primeiro passo para o estabelecimento de uma presença humana permanente no planeta. [Imagem: NASA/JPL]
Colonização de Marte
Marte é o alvo mais promissor para uma colonização humana porque ele é muito similar à Terra: possui uma gravidade moderada, uma atmosfera, "água abundante", dióxido de carbono e uma infinidade de outros minerais essenciais.
É o segundo planeta mais próximo da Terra, depois de Vênus, e uma viagem a Marte levaria apenas seis meses, usando a opção de lançamento mais favorável e a atual tecnologia dos foguetes químicos.
"Uma estratégia seria enviar inicialmente quatro astronautas, dois em cada uma de duas espaçonaves, ambas com módulo de pouso e com suprimentos suficientes, para estabelecer um único posto avançado em Marte. Uma missão só de ida a Marte seria o primeiro passo para o estabelecimento de uma presença humana permanente no planeta," explicou Schulze-Makuch.
Embora afirmem que seria essencial que os astronautas fossem voluntários, Schulze-Makuch e Davies ressaltam que não estão propondo que os pioneiros espaciais sejam simplesmente abandonados à própria sorte em Marte - eles propõem uma série contínua de missões, suficientes para dar suporte à colonização de longo prazo.
Cientistas propõem viagem sem volta a Marte
Rocha com um desenho que lembra um crânio humano, encontrada em Marte. [Imagem: NASA/J.P.Skipper/Eduardo Lucena]
Terráqueos marcianos
"Teria de fato muito pouca diferença dos primeiros pioneiros brancos que foram para o continente norte-americano, que deixaram a Europa com poucas expectativas de retorno," diz Davies.
"Exploradores como Colombo, Frobisher, Scott e Amundsen, embora não embarcassem em suas viagens com a intenção de se fixar em seus destinos, de qualquer forma assumiam riscos pessoais gigantescos para explorar novas terras, sabendo que havia uma probabilidade significativa de que poderiam morrer na tentativa."
Embora proponham que os colonos espaciais comecem logo a cultivar e explorar os recursos do próprio planeta, os cientistas afirmam que eles poderiam receber periodicamente suprimentos enviados da Terra.
E eles vão audaciosamente ainda mais longe: o posto avançado poderia se tornar autossuficiente e se tornar uma base para um programa de colonização espacial ainda maior, de onde os "terráqueos marcianos", ou mesmo terráqueos de nascença, poderiam partir para ir mais longe.
Cientistas propõem viagem sem volta a Marte
Áreas apontadas pelos pesquisadores como promissoras para a primeira colônia humana em Marte, por conterem cavernas e relevo capaz de funcionar como proteção para os colonos espaciais. [Imagem: Schulze-Makuch/Davies/NASA]
Seguro contra catástrofes
Os cientistas afirmam que o primeiro passo para a missão sem volta seria a seleção de um local adequado para a colônia, que preferencialmente tenha uma caverna ou outro relevo que sirva de abrigo, assim como recursos nas proximidades, como água, minerais e nutrientes para agricultura.
Marte não tem uma camada de ozônio e nem uma magnetosfera que proteja contra a ionização e os raios ultravioleta. Por isso, uma caverna seria muito importante. As cavernas marcianas também poderiam conter depósitos de gelo em seu interior, embora isso ainda não tenha sido comprovado.
O artigo sugere que, além de oferecer um "bote salva-vidas" no caso de uma mega-catástrofe na Terra, uma colônia em Marte seria uma plataforma inigualável para pesquisas científicas. Os astrobiólogos acreditam que é grande a probabilidade de que Marte tem ou já teve vida microbiana, e que seria uma oportunidade imperdível estudar uma forma de vida alienígena e um segundo registro evolucionário.
Espírito explorador
Cientistas propõem viagem sem volta a Marte
A colonização de Marte exigirá o retorno o espírito explorador e do ethos de assumir riscos do período das grandes explorações na Terra. [Imagem: NASA/JPL/John Olson]
Embora acreditem que a estratégia para colonizar Marte com missões sem retorno coloque o projeto, financeira e tecnologicamente, ao alcance das possibilidades atuais, Schulze-Makuch e Davies afirmam que a ideia precisará não apenas de um grande esforço de cooperação internacional, mas também exigirá o retorno o espírito explorador e do ethos de assumir riscos do período das grandes explorações na Terra.
Segundo eles, ao levantar a ideia entre seus colegas cientistas, vários deles manifestaram a intenção de se inscreverem como voluntários para tal missão.
O próprio Schulze-Makuch afirma que seria o primeiro voluntário a se inscrever no projeto - mesmo reconhecendo o fato de que, quando tal missão estivesse pronta para partir, ele certamente não teria mais idade para embarcar.
"Pesquisas informais feitas após palestras e conferências sobre a nossa proposta mostraram repetidamente que muitas pessoas gostariam de se voluntariar para uma missão sem retorno, tanto por razões de curiosidade científica, quanto por um espírito de aventura e de cumprir o destino da humanidade," afirmam eles.
Bibliografia:

To Boldly Go: A One-Way Human Mission to Mars
Dirk Schulze-Makuch, Paul Davies
Journal of Cosmology
October-November, 2010
Vol.: 12, 3619-3626
http://journalofcosmology.com/Mars108.html
Fonte: Site Inovação Tecnológica: http://goo.gl/denR