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sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz 2012! (e pausa no blog)

Em primeiro lugar, um feliz 2012 para todos. Que seja um ano de crescimento, realizações e florescimento!

* * * 

Quase um ano e meio blogando. Foi um projeto divertido. Ao invés de ser considerado doido varrido por amigos e parentes, uma oportunidade de trocar ideias com quem partilha de uma visão de mundo semelhante. Ao invés de uma conversa de bar restrita à falível memória de 4 ou 5 pessoas, você conversa com milhares de pessoas -- perpetuamente. Quando vi que tinha mais gente que o esperado "ouvindo" a conversa, tentei melhorá-la um pouco. Um blog é uma experiência legal, recomendo a todos.

Troquei e-mails com pessoas muito legais. Muitos comentários interessantes.

Tentar traduzir textos e legendar palestras deu uma turbinada no meu inglês. Antes de tentá-lo, nem achava que conseguiria (uma dica para seu inglês, se você também acha que não dá conta: assistir palestras do TED em português e, depois, em inglês, estudando 3 ou 4 palavras novas por palestra). Mas em 2012 tenho alguns grandes desafios profissionais para enfrentar e precisarei de cada minuto e da atenção focada apenas nestes projetos. Assim, provavelmente não haverá mais posts em 2012, a não ser posts automaticamente agendados. Mas, se tudo der certo, em 2013 estaremos aí. E se a singularidade ocorrer prematuramente 2013, quebro esse jejum blogueiro para dar plantão :)

Assim é a vida: não tem como pausá-la. É preciso viver e lançar hipóteses sobre a vida pelo caminho. E eu aprendi ou refleti melhor sobre muita coisa desde que comecei a blogar. Blogar é como pensar alto ou pensar por escrito. Eis algumas delas:

1. O transhumanismo é mais um conjunto de objetivos que uma filosofia sistematizada. Eu simpatizo com ele porque, de um lado, não quero (nem consigo) me iludir com crenças religiosas, esotéricas, místicas etc. (embora algumas dessas práticas possam até ser importante para, por exemplo, cultivar o desapego e a relativização do ego). Em uma sociedade em que a vida é dura e a educação é péssima, a religião, mesmo a religião tradicional (ex: evangélicos), pode ter uma função para a maioria das pessoas, já que elas não tem substitutos melhores. Não há grupos de professores de ética ou psicologia positiva tentando substituir pastores nas periferias brasileiras. A televisão está basicamente preocupada em atiçar desejos consumistas com programas bobocas intercalados com comerciais que prometem tornar seus cabelos cinematograficamente sedosos.
Minha avó é uma pessoa de fé e não vejo problema nenhum nisso. É o melhor que estava ao alcance dela e toda a vida dela está estruturada nisso. Por outro lado, acho imoral uma pessoa que teve melhores oportunidades educacionais, que tem um bom raciocínio, utilizar histórias consoladoras da religião – e ensiná-la a seus filhos. Podemos fazer algo melhor. Por isso eu acho que o espiritismo, que é muito popular no Brasil e tem muitos adeptos na classe média e classe média alta, é mais prejudicial que o barulhento movimento evangélico. São pessoas que poderiam estar dando alguma contribuição, que têm recursos. Com o propósito de tornar as pessoas mais relaxadas diante da angústia existencial, a religião desvia recursos e atenção, colocando-se no caminho das soluções reais.

2. Se a religião é uma má solução, o pessimismo niilista da cultura intelectual moderna e pós-moderna não é uma alternativa para mim. Simplesmente não me sinto atraído em curtir uma fossa na beira do abismo, nem pelo tipo de comportamento às vezes autodestrutivo e negligente que resulta dessas crenças. “Ah, a condição humana é uma miséria...", “o melhor que alguém pode conseguir na vida é não ter nascido” (Schopenhauer). A questão é que já nascemos e já estamos vivos e, se a condição humana tem aspectos deprimentes, por que não tentar fazer algo para melhorá-la, ao invés de consumir energias lamentando-se? Talvez não dê tempo para desfrutarmos dessas conquistas. Deixemos, então, de presente, às futuras gerações. A essência de ser humano é superar desafios e, pela cultura, avançamos mais rapidamente que a própria evolução. Sobre esse pessimismo desiludido moderno, eu diria: em comparação com as filosofias antigas, as filosofias modernas, além de elitistas (destinadas a guetos acadêmicos crescentemente especializados) são meio doentias (lembrando o aspecto visual da arte no século XIX, que abandonou o ideal da beleza). Os antigos estavam preocupados em uma maneira de viver bem a vida. Muitos modernos, pelo contrário, parecem ter se especializado em generalizar para toda a humanidade suas visões de mundo construídas, além dos problemas da condição humana, a partir de catástrofes pessoais (rejeição amorosa, fracasso acadêmico ou editorial, problemas financeiros, tuberculose etc.), históricas (guerras mundiais, holocausto etc.) e da inabalável crença de que as coisas nunca melhorarão. Sinceramente, eu acho que a humanidade não vai ficar muitos séculos ruminando “como a condição humana é miserável”. Muito antes, os seres humanos vão alterar a própria condição humana e vão se tornar  um pouco mais “divinos”.

3. Muito antes das pessoas se tornarem “divinas”, terão que se esforçarem para se tornarem sábias. Porque mesmo que a tecnologia crie um paraíso secular, escolhas morais equivocadas poderão transformar o céu em um inferno. Ou, destruindo tudo, poderão transformar o céu no nada. A boa notícia é que já possuímos muitas ferramentas e reflexões para tentarmos nos aprimorar moralmente. As filosofias antigas (e muitas reflexões modernas), como o estoicismo, o epicurismo e o budismo podem ter algo a nos ensinar. Não eram desenvolvidas para alimentar teses e carreiras acadêmicas, mas para proporcionar para as massas ferramentas para uma boa-vida. E permitir que a “marcha dos seres humanos” siga em frente...

4. Se queremos ser felizes, devemos entender também que a felicidade não está sujeita apenas a fatores externos (mas eu não vou ao ponto de afirmar que esses não importam nada). Em larga medida, a felicidade, o bem-estar, é subjetiva. E não se dar conta disso é jogar fora boas oportunidades para viver com bem-estar aqui e agora e gozar de melhor saúde. E ter a autodisciplina para se mover firmemente para dar sua contribuição para transformar as coisas.

5. Ao deixarem de ser atraídas pela religião, pessoas procuram por sentido. E porque isso ocorre? Por que as crianças indagam absolutamente sobre tudo, mas não se preocupam com o sentido da vida? Eis o que o grande cineasta Stanley Kubrick sugere: “As crianças, é claro, começam a vida com um sentimento de admiração imaculada, a capacidade de experimentar a alegria total com algo tão simples como o verde de uma folha. Mas, à medida que envelhecem, a consciência da morte e da decadência começa a interferir com a sua consciência e sutilmente corroem sua alegria de viver, seu idealismo - e sua hipótese da imortalidade. À medida que uma criança amadurece, ela vê morte e dor em todos os lugares ao seu redor, e começa a perder a fé na bondade superior do homem.” A solução, para mim, para o problema da falta de sentido da vida não reside tanto em tentar encontrar encontrar um sentido inato para a vida (porque a vida simplesmente parece não ter nenhum sentido inato obrigatório, a não ser os sentidos artificiais que cada um conferir a sua própria vida). A solução, para mim, está em dar um passo para atrás e perguntar porque nos perguntamos "qual o sentido da vida?"? Se é o sofrimento e a ansiedade diante da morte, da perda, das injustiças, dos fracassos e das doenças nos fazem indagar por um sentido da vida, então uma boa maneira de resolver o problema é usar o que está a nossa disposição para não sermos abalados por circunstâncias externas e, ao mesmo tempo, caminhar rumo à alteração dessas condições externas que nos fazem sofrer tanto. Um paraíso secular pode não dar um sentido para a vida. Mas poderia eliminar as condições que nos fazem buscar um sentido, de modo que a pergunta “qual o sentido da vida?” não faria qualquer sentido. Nos tornaríamos mais como crianças: veríamos uma existência de encanto e maravilhamento pelos segredos e mistérios do Cosmo.

7. A curto prazo, outro recurso cognitivo importante é: ao deixar de acreditar em um Deus pessoal, que ouve nossas preces, pune nossos inimigos e nos dá presentes, não devemos colocar nosso ego, nossa personalidade, no lugar antes ocupado pela divindade. Porque tudo conspira contra a ideia de que nosso ego seja o centro do Universo. Ao contrário: somos frágeis e, em escala cósmica e mesmo em escala social,  insignificantes, embora capazes de causar impactos positivos e negativos no mundo. Eu gostaria de ver esse ponto de vista ser mais explorado pelo transhumanismo. O desequilíbrio da balança para o lado do ego e do individualismo torna sua atmosfera um pouco asfixiante. Para mim é melhor tentar ver as coisas de uma perspectiva panorâmica, tentar perceber o fluxo da vida e a marcha humana "do alto do próprio eu". E, ao invés do ego, tentar identificar-se como uma gota do caudaloso rio do fluxo da vida, uma pegada na emocionante marcha dos homo sapiens. Além de muito mais plausível, isso nos ajuda e enxergar melhor nossos deveres e a nos conectar com algo maior que nós mesmos. 

8. Toda vez que leio sobre livros da antiguidade (obras perdidas de Sófocles, Aristóteles etc.) que se perderam para sempre, sinto uma pontadinha no coração. Perder um livro para sempre é algo que nunca deveria acontecer. E cada pessoa viva, além de ser uma instanciação do fluxo da vida, é também semelhante a um livro único: um conjunto de memórias e registros do mundo a partir de uma perspectiva única. Cada pessoa é um romance único que deveria ser preservado. E, esta é uma das razões pela qual simpatizo com o transhumanismo: é preciso também apreciar as pessoas, na sua individualidade, assim como apreciamos a singularidade de um floco de neve. Detalhe: as pessoas são microcosmos muito mais ricos e interessantes que um floco de neve ou um livro. A outra razão pela qual me identifico com o transhumanismo é que eu acho uma sacanagem cósmica a evolução ter criado seres mortais, com um forte instinto de sobrevivência lapidado por 4 bilhões de anos de evolução, e, ao mesmo tempo, conscientes da morte. É um tremendo bug. E a melhor solução que os seres humanos encontraram para esse problema foi a religião. Só que a religião, em um ambiente de livre circulação de informação, funciona bem apenas com os crédulos. Quem não consegue praticar bem a arte do "autoengano", fica de fora de seus benefícios. Pode-se argumentar que é possível treinar a mente para aceitar as coisas como são e não deixar se abalar por isso. Eu acho que esse é um bom remédio provisório, um paliativo, que deve ser utilizado enquanto caminhamos rumo às soluções reais. Mas talvez a grande maioria das pessoas nem  tenha nervos fortes o bastante para isso. E talvez seja um fenômeno natural que todos seres senscientes, conscientes da morte e intelientes, inclusive em outros cantos do Universo (se existirem), usem a tecnologia para redesenharem melhor a própria condição. A matéria produz vida. A vida produz consciência. A consciência torna-se inteligente e percebe os problemas envolvidos com seu substrato biológico (consciência da própria mortalidade). E usa a tecnologia para alterar o mundo e a si própria e transcender essa condição. E, também, para melhor se situar no eixo bem-estar/sofrimento (sistemas opióide e dopamínico).

Esses são os fios mais grossos da minha teia de crenças, do que considero ser uma visão plausível da Vida, do Universo e de Tudo Mais.  

Para terminar, então, esta fase deste blog, publico no próximo post uma excelente palestra de Joe Betts-Lacroix. Essa palestra realmente ressoou em mim e, por isso, me dei ao trabalho de legendá-la para que mais pessoas possam se beneficiar dela. É uma palestra bela e inspiradora. E, se você gostar dela também, faria um bem em divulgá-la. 

Além deste próximo post com a palestra de Joe Betts-Lacroix, eu agendei no Blogger alguns posts que já tinha quase prontos. Tem um bom post sobre literatura de autoajuda e psicologia positiva. E, ainda, alguns posts automáticos com algumas de minhas TED Talks favoritas. Só para não ficar absolutamente parado. Fora estes posts automáticos agendados no blogger, ficará tudo parado.

Lições morais de um homem que não morria



Como as pessoas se comportariam se pudéssemos viver séculos? Morreríamos de tédio? Viveríamos só pelos prazeres sensuais e adrenalina? Aprenderíamos a nos comportar bem? Destruiríamos tudo na tentativa de encontrar significado? A vida se tornaria um inferno? Um paraíso? Procuraríamos florescer?

Ninguém sabe e será preciso experimentar para ver no que dá.

Mas você pode fazer um divertido experimento mental assistindo o filme "Feitiço do Tempo" (Groundhog Day Trailer - 1993). Recomendo.

O que a "Marcha dos Pinguins" tem a ver com a gente?


Estava na locadora e, por absoluta falta de opção, acabei escolhendo o filme "A Marcha dos Pinguins". Até me surpreendi ao ver que o filme havia sido premiado. "O que um filme sobre pinguins pode acrescentar à vida de alguém?" -- pensei.

O filme me surpreendeu. E me levou a perguntar: por que o filme "A Marcha dos Pinguins" é tão bonito? Por que a história dessas aves bípedes desengonçadas chega a ser comovente?

É porque essa marcha não é dos pinguins. É a marcha de todos os animais sencientes, que lutam para sobreviver. É, portanto, também a marcha dos seres humanos.

A incrível jornada dos seres senscientes para produzir mais vida.
A marcha dos humanos têm uma vantagem e uma desvantagem em relação a marcha dos pinguins. A desvantagem é que os seres humanos, exceto quando estão bem anestesiados pela religião, temos consciência da morte e da própria decadência, o que gera ansiedade e questionamento pelo sentida da vida em razão da própria mortalidade.

A vantagem dos seres humanos é possuímos cultura (incluindo aí ciência e tecnologia) e, a cada geração, a marcha dos humanos é um pouquinho diferente. E chegará um momento em que os seres humanos redesenharão completamente a própria marcha, procurando se libertar de todos (ou atenuando-os) os aspectos da condição animal que geram sofrimento e ansiedade. Talvez seja esse o destino da evolução: a matéria produz vida, a vida torna-se inteligente e consciente da própria condição. Para não sucumbir à tristeza e ansiedade, a vida inteligente imagina paraísos (religião) e, gradualmente, se move para tentar alterar o meio ambiente e sua própria condição para aproximá-los de suas fantasias e libertar-se dos limites arbitrários e cegos impostos pela evolução. Como pontuou Richard Dawkins: "É muito plausível que no universo existam criaturas semelhantes a deuses. É muito importante entender que esses deuses foram feitos por um explicável progresso científico de evolução incremental."

Vale a pena conferir este filme.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O jogo da vida: estoicismo como gameficação do viver

“Como manter a mente saudável quando o mundo está doente?”
“Como ser uma boa pessoa quando o mundo é corrupto?”
“Como se manter livre em um mundo que quer nos escravizar?”
“Como ser feliz diante do sofrimento e das ansiedades da vida?”

Essas foram as questões com que os estoicos se deparavam e tentavam solucionar. A solução, para eles, era usar a Razão (já que o traço de nossa natureza que mais nos distingue dos outros animais é a racionalidade) para eliminar as emoções negativas (tristeza, ira, ansiedades etc.) e atingir a felicidade, esta entendida como um estado de bem-estar psicológico constante, uma alegria serena e imperturbável por circunstâncias externas, que se mantém firme e indiferente ao mundo externo (ao contrário da conotação que o adjetivo “estoico” adquiriu com o tempo, os estoicos não defendiam exatamente a eliminação de todas as emoções, mas sim a eliminação das emoções negativas).

O professor Luke Johnson, em seu curso "Practical Philosophy: The Greco-Roman Moralists" ensina que o ponto de partida para os estoicos é ter
“uma mente sadia, estar em posse constante de sua sanidade. Em outras palavras, você tem que começar por ser uma criatura racional.(..) Note que os estóicos davam uma tremenda atenção ao poder da mente de  perceber e moldar a realidade. (...) Você tem que começar por controlar sua própria razão. Se a razão é o seu instrumento de controlar sua vida e bem-aventurança, então você precisa ser capaz de controlar a sua razão. Assim, ele [Sêneca] aconselha seu irmão a libertar sua mente das opressões, porque essa é a única maneira de aprender alguma coisa. Você tem que envolver o mundo com sua mente. No entanto, ele diz, assim como Zeus, assim como os deuses, é preciso puxar a mente para trás de volta e manter o controle sobre ela. Não perca sua mente no mundo.”


Um símbolo estoico moderno, desenhado por Michel Daw enfatizando a racionalidade (espiral de Fibonacci) e a ideia aristotélica da virtude como o "meio de ouro".
Os estoicos dividiam seus estudos em lógica, física e ética. A lógica abrangia o estudo do raciocínio e da lógica formal. Eles se interessavam pela lógica porque entendiam que é preciso saber racioniar corretamente e para isso, dominavam a lógica formal. O estudo da física abrangia as ciências naturais e também explicações metafísicas sobre o Universo. Eles acreditavam que o universo chegaria ao fim em sucessivas conflagrações em que estrelas colidem com estrelas e tudo é destruído e apagado por uma série de incêndios, dando ensejo a novos mundos e a renovação da vida (convenhamos, embora sejam apenas chutes, os estoicos até que chegaram perto da astrofísica moderna).

Mas a ênfase, principalmente entre os romanos, era o estudo da ética, que tinha o objetivo de ensinar o filósofo a se sentir bem (maestria sobre pensamentos e emoções) e a agir bem (praticar as virtudes). Os estoicos defendiam que podemos eliminar nossas emoções negativas controlando a forma como percebemos os fatos e as circunstâncias externas, mesmo quando não podemos alterá-las. Muitas vezes, não há como mudar as circunstâncias externas, mas podemos mudar o julgamento que fazemos delas de modo a não permitir que estas circunstâncias nos façam experimentar sentimentos negativos. É como se os estoicos quisessem criar entre as circunstâncias externas e nosso eu interno uma camada cognitiva protetora capaz de processar primeiro as circunstâncias externas, permitindo ao eu interno desfrutar de bem-estar independentemente do que lhe ocorresse. E é este estado de bem-estar interno e não a satisfação de desejos escravizantes ("quanto mais desejos você tiver, a mais senhores terá de servir") que o verdadeiro filósofo deveria buscar. Esse estado interno é conseguido tanto pelo controle das "percepções" (crenças, julgamentos) quanto pela prática da virtude.

Mas o estoicismo não era uma filosofia centrada apenas no indivíduo ou no individualismo. Para os estoicos, a busca da própria tranquilidade interior não os eximia de cumprirem seus deveres sociais e, por isso, geralmente criticavam os epicuristas: não é possível abandonar os deveres sociais para viver em alegria em companhia apenas dos amigos tocando violão. É preciso cumprir seus deveres sociais e aprender a ser feliz no meio da confusão e dissabores da vida em sociedade -- porém, sem se perturbar com eles. "Começa cada dia por dizer a ti próprio: Hoje vou deparar com a intromissão,
a ingratidão, a insolência, a deslealdade, a má-vontade e o egoísmo — todos devidos à ignorância por parte do ofensor sobre o que é o bem e o mal
." Seria de se esperar um modo de pensar assim em um escravo, a todo momento insultado e humilhado. Mas estas são as palavras do imperador Marco Aurélio, que se notabilizou pela prática do estoicismo.

Sobre os estoicos recai o rótulo de resignados ou passivos diante do mundo. Segundo William B. Irvine, em seu livro “A Guide to the Good Life: the Ancient Art of Stoic Joy” (que recomendo bastante) é um engano pensar que os estoicos seriam defensores do fatalismo e da passividade, já que, na prática, observa-se que os estoicos estavam constantemente envolvidos em asuntos públicos e, na busca do cumprimento do que entendiam ser seus deveres, muitas vezes se sujeitavam a exílios ou receberam a própria pena de morte. Irvine também faz uma releitura bilhante da dicotomia estoica (“há coisas que estão sob nosso controle e coisas que não estão sob nosso controle”) propondo que, na verdade, trata-se de uma tricotomia: “há coisas que estão sob nosso controle, coisas que estão fora do nosso controle e coisas que estão apenas parcialmente sob nosso controle”. Nessa interpretação ou releitura do estoicismo, a resignação estoica teria outro sentido: o de não se consumir com preocupação ou remorso com aquilo que já é passado, nem com aquilo que não está ao seu alcance controlar. Um soldado, por exemplo, não tem controle sobre o desfecho de uma batalha. Não está sob seu controle o número de soldados inimigos, a qualidade das armas inimigas, os acidentes aleatórios no campo de batalha, as condições de tempo etc. Logo, é uma perda de tempo ele deixar-se consumir pela ansiedade em relação ao resultado final da batalha. Os estoicos diriam que lutar bem, usar bem a espada, manter a calma e atenção durante a luta são coisas que estão sob o controle dele e são nessas coisas que ele deve se concentrar. Seria uma espécie de internalização de objetivos, focando sua atenção em tudo aquilo que está sob seu controle.

Outra evidência de que o estoicismo não conduzia à passividade é que seus ideais inspiraram grandes transformações sociais, como a própria reinvenção da república e da democracia no mundo moderno com a Revolução Americana (John Adams, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin  foram leitores e admiradores dos moraralistas greco-romanos, dentre eles, os estoicos).

No Império Romano, onde o estoicismo se tornou bastante popular, era possível encontrar dentre seus praticantes pessoas tão diferentes quanto um escravo (Epiteto), um imperador (Marco Aurélio), um professor (Musônio Rufo/Musonius Rufus), um banqueiro e conselheiro da corte (Sêneca) e um senador (Cícero). Para um estoico, não importava saber quem você era, o que você tinha, onde você nasceu ou mesmo o que você pensava. O que importava era seu modo de agir e a virtude poderia fazer de um escravo (Epiteto) um rei e o vício poderia transformar um Imperador (Calígula) em um escravo -- ou mesmo em uma besta.

Algumas das ideias estoicas soariam conservadoras hoje, como o silêncio em relação à ordem escravocrata (que, aliás, no Brasil perdurou até 1888) e uma moralidade sexual que hoje soa ultrapassada (a corrente mais ascética defendia o sexo somente para reprodução e havia uma reprovação para com o homossexualismo). Por outro lado, defenderam também ideias progressistas para seu tempo: Musônio Rufo, “o sócrates romano”, chegou a defender a educação para as mulheres, argumentando que elas tinham capacidade de aprender a filosofia assim como os homens. Ele também foi um defensor do vegetarianismo. Detalhe: estamos falando de alguém que viveu no século I antes de Cristo.

O estoicismo teve um caráter eclético desde seu surgimento na Grécia e, dentre os romanos, apresentou inúmeras variações. É possível notar uma tendência mais ascética influenciada pelo cinismo (cinismo é outro termo que teve o significado alterado com o tempo, os cínicos eram uma espécie de hippies ascetas da antiguidade) e uma tendência mais palatável aos dias de hoje que chega a admirar elementos do epicurismo, a tendência de Sêneca (Thomas Jefferson também parece ter proposto uma mistura de estoicismo e epicurismo). Esse ecletismo e apreciação da racionalidade é um traço interessante porque permite que você mesmo, no exercício de sua própria “faculdade mestra” faça sua própria leitura do estoicismo. Na minha leitura do estoicismo, por exemplo, não há lugar para a crença (comum nos estoicos antigos) em um Deus que governa o mundo por sua Providência punindo os maus e premiando os bons, nem a crença na imortalidade da alma (a não ser pela tecnologia futura). Mas pensar no ideal da Razão (não como imperfeitamente se manifesta em nossas mentes, mas uma razão abstratamente ou idealmente considerada) e pensar na Natureza ou Deus (prefiro evitar essa palavra) como a grandiosidade (fria e indiferente aos assuntos humanos, é verdade) do Cosmos é uma estratégia cognitiva para mim válida e interessante para nos ajudar a melhor perceber a insignificância dos problemas e angústias dos seres humanos, dos pínguins e das formigas da pia da cozinha em uma escala cósmica. E também para evitar o risco de substituir a lacuna de Deus pelo próprio ego.

A filosofia, para os estoicos, era uma terapia ou um remédio para alma. Mas essa terapia não funcionava com palavras: exigia treinamento e prática constante. Um aprendiz estoico deveria trabalhar sua mente com o mesmo rigor com que um atleta trabalha seu corpo. O papel do filósofo estoico era o de um coaching. Por conta disso, eles desenvolviam técnicas para moldar hábitos mentais necessários ao domínio sobre pensamentos e emoções negativas. Diferentemente da filosofia e da atmosfera intelectual niilista e pessimista do século XX e da pós-modernidade, para os estoicos a filosofia estava a serviço da vida (boa). Sim, o mundo pode ser doente, alienante, cheio de desgraças, mas você pode desfrutar da tranquilidade da alma apesar de tudo isso. Ao contrário da literatura de autoajuda (com raras exceções) e das religiões, a filosofia estoica era sofisticada e inteligente (e não queria só colocar a mão no seu bolso). Você não precisava jogar sua inteligência no lixo, nem virar as costas à realidade dura do mundo para ser feliz. Que tradição, que tecnologia moral e psicológica!

A influência do estoicismo sobre a psicologia moderna é inegável. Albert Ellis, um dos criadores da terapia comportamental cognitiva e apelidado de "filósofo estoico com boca de marujo" (por conta dos palavrões) disse que sua inspiração para a TCC foi a frase de Epiteto de que "não são os eventos, mas nossas opiniões sobre os eventos que nos causam sofrimento." Algumas das técnicas estoicas estão mais vivas do que nunca na moderna terapia comportamental cognitiva de Albert Ellis e Aaron Beck. E, ao contrário da desgastada psicanálise, a eficácia da terapia comportamental cognitiva é suportada por muita evidência. Há quem pense também que o movimento da psicologia positiva (Mihaly Csikszentmihalyi, Martin Seligman etc.) desempenharia, hoje, um papel semelhante ao do estoicismo na antiguidade.

Mas uma grande vantagem de se estudar o estoicismo ao invés de somente as técnicas de terapia comportamental cognitiva ou psicologia positiva é poder se beneficiar de uma enorme quantidade de ricas reflexões sobre a arte de viver e, principalmente, poder compartilhar alguns dos valores (e não só técnicas) dos estoicos. Usufruir de mais de séculos de reflexão filosófica, “ouvir a voz” de Sêneca ou Marco Aurélio fornece também um sentimento de conexão com o passado.


"Um homem por inteiro", de Tom Wolf: o romance que despertou um interesse recente pelo estoicismo

Um interesse recente pelo estoicismo foi despertado a partir da publicação do livro “Um homem por inteiro”, de Tom Wolfe. O próprio William B. Irvine, autor de “A Guide to Good Life...", outro livro que tem agradado bastante os interessados no assunto, informa que sua curiosidade surgiu com a leitura do livro de Wolfe. Para quem quiser se informar melhor sobre o assunto, portanto, esses dois livros parecem ser os mais recomendados (o livro de William B. Irvine, apesar de escrito em inglês, tem uma linguagem simples e agradável).

Para usar um termo da moda, eu arriscaria dizer que o estoicismo é uma forma de “gameficação” da própria vida: é aprender a usar a mente para jogar bem o jogo da vida. Em um post futuro vou expor meu próprio sincretismo entre o estoicismo (da tendência que admira alguma coisa do Epicurismo) e o transhumanismo.

O estoicismo, espero ter deixado claro, não tem nada a ver com tristeza e sofrimento, mas com alegria e até bom humor. O bom humor sempre foi utilizado pelos estoicos como mais um recurso para jogar o jogo da vida. Catão, por exemplo, um político e cônsul que lutou pela República Romana, ao receber uma cúspida na face, usou o bom humor como resposta ao seu ofensor: "Vou jurar para qualquer um, Lentulus, que as pessoas estão erradas ao dizerem que você não sabe usar a boca."


Concluo este post com um exemplo extremo, belo e bem humorado da prática do estoicismo qe nos é contado por Luke Johnson, sobre Sêneca descrevendo os últimos dias de vida de Júlio Canus, filósofo estoico condenado à morte por Calígula.

“Ele [Júlio Canus] sabia que ia ser executado e Sêneca narra que Júlio passou os últimos 10 dias antes da data marcada para sua execução apenas jogando -- brilhantemente -- xadrez. Quando chegou o dia e o centurião veio para levá-lo para ser executado, Júlio fez sua última jogada e contou seus peões. Então, disse ao centurião: ‘Eu quero que você se lembre que eu estava ganhando a partida. Não deixe o outro jogador mentir dizendo que ele estava ganhando!’ Sêneca observa que ele [Júlio Canus] não estava apenas jogando xadrez, mas sim jogando o próprio jogo da vida, mostrando o que significava ser um filósofo, que é ser capaz de ter esse tipo de distanciamento em face da própria morte. Quando Júlio caminhava para ser executado, seu antigo professor de filosofia o acompanhou no percurso e lhe perguntou no que ele estava pensando. Júlio respondeu que estava pensando sobre a imortalidade da alma, que sempre foi fascinado em saber se a alma é consciente no momento da morte. E ele queria investigar esse assunto no momento de sua própria morte. Seneca conclui dizendo que ninguém ‘jogou filosofia’ (desempenhou o papel de filósofo) a tal extremo como aquele homem. Então é isso que a filosofia é capaz de fazer, ensinar a lidar com todas as voltas e reviravoltas da vida, mesmo sem mudá-las. Júlio Canus não podia fazer nada a respeito de sua própria execução, mas ele trouxe a execução para seu próprio jogo, assim como no xadrez. E, fazendo isso, ele se recusou a fazer o jogo do tirano [Calígula] e conseguiu manter-se livre, mesmo em face de sua própria morte.”

Para saber mais:
(ao invés de ir direto para o texto dos estoicos, acho melhor ganhar uma visão geral do assunto com o livro de Irvine)

Tom Wolfe, Um homem por inteiro
William B. Irvine,  A Guide to the Good Life: the Ancient Art of Stoic Joy.
Marco Aurélio, Meditações.
Sêneca, Da Tranquilidade da Alma, Da felicidade etc.

Ateísmo 2.0: por que as religiões ainda triunfam?

Religião para ateus: leitura rápida, agradável e extremamente informativa.
Por que os ateus acreditam que expor a irracionalidade e os perigos da religião em blogs e livros deveria levar as pessoas a abandonar a religião e abraçar a racionalidade? Por que nem um milhão de blogs e livros e nem uma improvável conversão do Papa ao ateísmo seria capaz de acabar com o fenômeno religião ou fé no sobrenatural, fé no Salvador, misticismo, esoterismo, espiritismo, espiritualismo ou qualquer outro nome que se dê ao fenômeno para tentar disfarçá-lo?
Alain de Botton nos dá uma resposta certeira:
"Podemos então reconhecer que inventamos as religiões para servirem a duas necessidades centrais, que existem até hoje e que a sociedade secular não foi capaz de resolver por meio de nenhuma habilidade especial: primeiro, a necessidade de viver juntos em comunidades e em harmonia apesar dos nossos impulsos egoístas e violentos profundamente enraizados E, segundo, a necessidade de lidar com aterrorizantes graus de dor, que surgem da nossa vulnerabilidade ao fracasso profissional, a relacionamentos problemáticos, à morte de entes queridos e a nossa decadência e morte. Deus pode estar morto, mas as questões urgentes que nos impulsionaram a inventá-lo ainda nos sensibilizam e exigem resoluções..."

Um livro que toda pessoa interessada nas relações entre religião e ciência e o futuro da religião deveria ler: Religião para Ateus, do filósofo Alain de Botton. Um livro pequeno, direto, simples e extremamente inteligente. E além disso, barato.

Leia uma excelente entrevista dele aqui.

Abaixo, alguns trechos do livro.

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"A pergunta mais enfadonha e inútil que se pode fazer sobre qualquer religião é se ela é ou não verdadeira - no sentido de ter vindo dos céus ao som de trombetas e de ser governada sobrenaturalmente por profetas e seres celestiais.

Para poupar tempo, e sob o risco de uma dolorosa perda de leitores já no início, vamos afirmar de forma franca que obviamente nenhuma religião é verdadeira num sentido concedida-por-Deus. Este livro é um livro para pessoas incapazes de acreditar em milagres, espíritos ou histórias de sarça ardente, e que não têm qualquer interesse maior nos feitos de homens e mulheres incomuns, como a santa do século XIII Inês de Montepulciano, que diziam ser capaz de levitar meio metro enquanto rezava e de ressuscitar crianças - e que, no fim da vida (supostamente), ascendeu aos céus do sul da Toscana nas costas de um anjo.

Tentar provar a não existência de Deus pode ser uma atividade divertida para ateus. Críticos pragmáticos da religião encontraram grande satisfação no desnudamento da idiotia de crentes com cruel minúcia, parando somente após sentirem ter revelado seus inimigos como absolutos tolos ou maníacos.

Embora esse exercício tenha suas recompensas, a real questão não é se Deus existe ou não, mas para onde levar a discussão ao se concluir que ele evidentemente não existe. (...)

É quando paramos de acreditar que as religiões foram outorgadas do alto ou que são totalmente insanas que as coisas ficam mais interessantes. Podemos então reconhecer que inventamos as religiões para servirem a duas necessidades centrais, que existem até hoje e que a sociedade secular não foi capaz de resolver por meio de nenhuma habilidade especial: primeiro, a necessidade de viver juntos em comunidades e em harmonia apesar dos nossos impulsos egoístas e violentos profundamente enraizados E, segundo, a necessidade de lidar com aterrorizantes graus de dor, que surgem da nossa vulnerabilidade ao fracasso profissional, a relacionamentos problemáticos, à morte de entes queridos e a nossa decadência e morte. Deus pode estar morto, mas as questões urgentes que nos impulsionaram a inventá-lo ainda nos sensibilizam e exigem resoluções que não desaparecem quando somos instados a perceber algumas imprecisões científicas na narrativa sobre o milagre da multiplicação dos pães e peixes.

Eu cresci num lar obstinademente ateu, como filho de dois judeus seculares que colocavam a crença religiosa num nível similar ao da existência do Papai Noel. Lembro-me do meu pai levando minha irmã às lágrimas numa tentativa de fazê-la abandonar a noção modestamente sustentada de que um deus recluso poderia viver em alguma parte do universo. Ela tinha 8 anos na época. Se meus pais descobriam que algum membro do seu círculo social nutria sentimentos religiosos clandestinos, eles passavam a destinar-lhe o tipo de piedade normalmente reservada àqueles diagnosticados com uma doença degenerativa e nunca mais seriam persuadidos a considerar aquela pessoa seriamente.”

sábado, 10 de dezembro de 2011

Vida útil: como contribuir para a cura de doenças (Alzheimer, Parkinson, câncer etc.) sem fazer quase nada

Uma boa notícia para quem quer dar alguma contribuição para a ciência mesmo não sendo um cientista profissional. Na verdade, não precisa nem ser cientista amador.

A universidade de Stanford tem um software interessante chamado Folding@Home (http://folding.stanford.edu). Você baixa o software (http://folding.stanford.edu/English/Download), que é de fácil instalação, e, quando você não estiver usando seu computador, o software entra em ação e integra seu computador a uma rede de milhares de outros computadores que ficam fazendo cálculos para simulação da formação (enovelamento) de proteínas relacionadas às doenças  de Alzheimer, Parkinson, vários tpos de câncer, dentre outras (a maioria dessas doenças decorre de falhas na formação de proteínas).

O mais surpreendente deste projeto é que, usando o tempo ocioso de computadores de pessoas comuns, ele é capaz de obter resultados superiores àqueles que seriam obtidos mesmos com os mais avançados supercomputadores modernos. Veja o poder que pequenas ações agregadas pode ter! O site explica em detalhes porque isso ocorre:

"Modern supercomputers are essentially clusters of hundreds of processors linked by fast networking. The speed of these processors is comparable to (and often slower than) those found in PCs! Thus, if an algorithm (like ours) does not need the fast networking, it will run just as fast on a supercluster as a supercomputer. However, our application needs not the hundreds of processors found in modern supercomputers, but hundreds of thousands of processors. Hence, the calculations performed on Folding@home would not be possible by any other means! Moreover, even if we were given exclusive access to all of the supercomputers in the world, we would still have fewer computing cycles than we do with the Folding@home cluster! This is possible since PC processors are now very fast and there are hundreds of millions of PCs sitting idle in the world." (fonte: http://folding.stanford.edu/English/FAQ-main#ntoc12)

Segundo seus idealizadores, o projeto tem obtido resultados muito satisfatórios:

"We have been able to fold several proteins in the 5-10 microsecond time range with experimental validation of our folding kinetics. This is a fundamental advance over previous work. Scientific papers detailing our results can be found in the Results section. We are now moving to other important proteins used in structural biology studies of folding as well as proteins involved in disease. There are many peer-reviewed and published in top journals (Science, Nature, Nature Structural Biology, PNAS, JMB, etc) that have resulted from FAH."

O software é cross plataform (Windows, Linux, Mac) e funciona até no vídeo game Sony Playstation 3. Ele não reduz a velocidade de sua internet, porque ele não usa a rede continuamente. Ele baixa um trabalho, realiza os cálculos mesmo off line e, depois, os envia para o servidor do projeto. Em qualquer caso, você pode sair do programa se verificar que, naquele momento, ele está atrapalhando sua navegação (por estar baixando ou enviando um trabalho) e abri-lo mais tarde.

Você pode escolher um nome e participar de um grupo. Há um ranking de usuários e grupos, como se fosse um ranking de um jogo. Eu, por exemplo, escolhi participar do grupo Transhumanists, cujo número é: . Para participar de um grupo, basta colocar o número do grupo no painel de configurações. 

Em alguns computadores, o programa funciona ainda como protetor de tela, exibindo a imagem de uma proteína sendo enovelada. Mas no meu PC (Windows 7 64 bytes) essa proteção de tela não funciona.

Instalei o software há algumas semanas. É satisfatório, depois de desgrudar um pouco da tela, voltar e ouvir o barulho do processador trabalhando em um problema de biologia molecular. Só a satisfação interior de contribuir para algo tão grande e de potencial tão benéfico para as pessoas já me paga pelo uso do meu computador. Não vejo como ele poderia ser empregado de melhor maneira.

E então, o que você está esperando para começar a seu protetor de tela para avançar nosso conhecimento na luta contra os verdadeiros inimigos da humanidade? (Alzheimer, Parkinson, câncer etc.)

Para fazer o download e instalar o programa, clique aí:

http://folding.stanford.edu/English/Download

Isso merece ser divulgado!

É possível ser criopreservado no Brasil?

Ao  contrário do que afirmamos em um post anterior, contratar a Alcor no Brasil, apesar de possível (há pelo menos um cliente da Alcor no Brasil, o dermatologista de Campinas Valcinir Bedin) parece ser inviável. Isso porque, devido à ausência de instalações no Brasil, é impossível realizar o procedimento de vitrificação e, assim, diminuir os danos celulares resultantes do congelamento. Esse processo funciona assim:

"O sangue da pessoa morta é substituído por um líquido que ajuda na conservação das células. Pelo coração, os especialistas injetam até 20 litros de uma outra solução, um anticongelante. Quando a temperatura baixa, esse solução anticongelante fica rígido como vidro, o que impede a formação de gelo no cérebro e garante a preservação quase total das células.

"Depois de todo esse processo de vitrificação, o corpo ou o paciente - como eles preferem dizer - é levado para a câmara de resfriamento. Ele é colocado em uma maca e os tubos começam a jogar nitrogênio líquido. A temperatura começa em 0ºC e chega, em cinco ou sete dias, a -196ºC, que é a temperatura que o corpo vai ficar por anos.

"Benjamin não pode abrir o tanque onde estão os corpos de humanos, mas mostra onde ficam os animais de estimação. 'Aqui dentro tem um gato congelado', ele diz. E conta um experimento recente que trouxe mais esperança à criogenia: o rim de um coelho que estava vitrificado foi transplantado com sucesso em outro animal." (fonte: Fantástico)

Uma das preocupações da comunidade de transhumanistas no Brasil deveria ser criar um núcleo da Alcor. Mas isso requeriria um certo número mínimo de interessados -- um número difícil de ser atingido, a menos que a criônica vire tema da novela das 8:00h. A alternativa, se isso não vier a ocorrer, é desfrutar da sua aposentadoria em outro país. Os países desenvolvidos não são melhores apenas para se viver. Hoje, são literalmente melhores para se morrer. Confira as informações abaixo da ALCOR sobre membros internacionais:


Informação da Alcor sobre membros internacionais

A Alcor está localizada nos Estados Unidos. Residentes de outros países podem fazer acordos criônicos com a Alcor, mas a resposta que a Alcor pode fornecer fora dos Estados Unidos é muito limitada na maioria dos casos. E, devido a significativos custos adicionais associados, sobretaxas também se aplicam a fundos mínimos de criopreservação para os residentes de outros países, exceto o Canadá. Estas sobretaxas são no valor de $15.000 no Reino Unido e $25.000 em outros países.

Dentro dos Estados Unidos, geralmente é possível arranjar transporte de pacientes criônicos acondicionados em gelo para Alcor num espaço de 24 a 36 horas após a morte legal. A perfusão crioprotectora (administração de produtos químicos para reduzir os danos de congelamento) geralmente pode ser realizada em pacientes que chegam à Alcor dentro deste prazo. Além disso, dentro dos E.U.A e Canadá, a Alcor tentará enviar pessoal para realizar procedimentos de estabilização local no momento da morte jurídica de acordo com os termos do programa “Comprehensive Member Standby”.

A situação fora dos Estados Unidos e Canadá é mais difícil. O “Comprehensive Member Standby” NÃO está disponível fora dos E.U.A e Canadá. Normalmente não é possível para a Alcor a prestação de quaisquer serviços de espera antes da morte jurídica em outros países. Além disso, o transporte a partir de outros países pode necessitar de vários dias, tornando impossível o uso de perfusão crioprotectora. Para a maioria dos casos internacionais, o melhor que pode ser feito é embalamento em gelo seco por um agente funerário local seguido do envio para Alcor na temperatura de gelo seco. Isso resulta em "straight freezing" (congelamento sem crioprotectores), o que provoca muitos danos a nível celular.

Para melhor responder aos casos em outros países, membros da Alcor e outras organizações criônicas às vezes são formados grupos locais. A Alcor incentiva isso. Actividades de grupos locais podem incluir o contacto com agentes funerárias cooperativas, investigação de regulamentos locais e requisitos de transporte de restos mortais, e o desenvolvimento da capacidade local de estabilização criónica. Se recursos suficientes e competências estão disponíveis, então o desenvolvimento da capacidade local de perfusão crioprotectora é uma possibilidade.

Uma lista de alguns grupos internacionais criónicos está disponivel em baixo. A listagem não implica nenhum tipo de relação directa com a Alcor.

Alcor Portugal
Alcor UK
Cryonics Association of Australasia
Cryonics Europe
Cryonics Society of Canada
Cryonics Society of Spain
Danish Cryonics Support Group
Italian Cryonics Association
Japan Cryonics Association
New Zealand Cryonics Society

domingo, 4 de dezembro de 2011

Larry King, celebridade da CNN, choca convidados ao confessar que quer ser criopreservado

Larry King, da CNN, chocou seus convidados ao confessar que quer ser cripreservado.


"Eu quero ser congelado na esperança de que eles me tragam de volta" Larry King disse a um grupo de convidados para um jantar, chocando os que se reuniram em sua casa em Beverly Hills para uma festa promovida por ele e sua esposa, Shawn.

"CNN Presents: A Larry King Special: Dinner with the Kings" vai ao ar às 20:00 ET de domingo.

Nenhum tópico ficou de fora da conversa com Conan O'Brien, Tyra Banks, Shaquille O'Neal, Seth MacFarlane, Jack Dorsey, Quincy Jones e Russell: amizade, inseguranças, sucesso, preocupações, vida, morte e quase o tudo mais.

MacFarlane perguntou ao anfitrião da CNN se ele era "talvez um pouco obcecado com sua própria mortalidade, como eu sou?"

"Oh, eu temo a morte," King disse à "Family Guy" criador. "Meu maior medo é a morte, porque eu acho que não vou a lugar nenhum. E já que eu acho isso e eu não tenho uma crença ... Sou casado com uma pessoa que tem a crença, assim ela sabe que está indo para algum lugar."

Embora a mortalidade tenha sido um tópico de discussão, o jantar estava longe de ser macabro. (...)

"Esta é uma grande notícia", disse O'Brien. "Você gostaria de ser congelado? Isso é novidade para mim."

"É apenas de uma aposta", respondeu King.

O comediante e apresentador do programa TBS "Conan", ainda em choque, disse ao grupo: "Eu só quero ter certeza de que já temos uma manchete aqui, que é que você deseja ser congelados."

MacFarlane perguntou em voz alta se King queria viver para sempre.

"Sim, pode apostar o seu rabo", disse King

Fonte: http://articles.cnn.com/2011-12-02/entertainment/showbiz_larry-king-i-want-to-be-frozen_1_larry-king-cnn-host-seth-macfarlane?_s=PM:SHOWBIZ

Mais estudos revelam os riscos de ficar sentado demais

Mais estudos revelam o perigo para profissionais que trabalham o dia todo sentado. Sugestão: exercitar-se em pequenos intervalos, durante o trabalho.

"Ficar sentado, Levine concluiu, não é apenas ruim para as pessoas - isso mata elas. A afirmação pode parecer um pouco drástica, mas Levine não é o único cientista que calcula que o sedentarismo oferece uma rota acelerada a uma sepultura precoce. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Hong Kong concluiu que é melhor para você ficar andando e fumando do que sentar e não fazer nada. Vinte por cento de todas as mortes de pessoas com 35 anos ou mais foram atribuídas à falta de exercício físico. Quanto à probabilidade de morrer de câncer, ela aumentou 45 por cento para homens e 28 por cento para as mulheres se passou a ser inativo."

Techo completo:
http://www.telegraph.co.uk/health/healthnews/8928745/Could-a-treadmill-desk-save-your-life.html

Afinal, o que é um transumanista?


Postado originalmente por: ian em http://scottishatheist.org.uk/?cat=8

Recentemente, tive que fazer uma visita ao hospital. Foi uma pequena lesão, resultante de uma tentativa entusiasmada de instalar uma porta na minha garagem. A médica ia preenchendo minha ficha médica e, inevitavelmente, chegou na pergunta mais delicada.

"Religião?"

Passaram-se quase oito anos desde quando eu respondia a essa pergunta com um alegre "cristão". A conversão ao cristianismo foi um evento de mudança de vida para mim. Mudou a minha opinião, meu comportamento, tudo. Eu não bebia, nem usava drogas, nem fazia sexo ou -- se é para dizer toda a verdade -- eu não desfrutava de um único momento de minha vida. Deixar a Igreja foi um processo muito mais gradual, que teve muito pouco a ver com luzes brilhantes, vozes do além ou qualquer coisa sobrenatural. Foi um processo longo e lento.

Decidi que tinha chegado a hora de ficar aberto sobre as minhas crenças. Desta vez, eu não iria me esconder atrás de humor. Responder [à pergunta “Religião?]” com um  "Não, obrigado", foi engraçado na primeira vez.

"Eu sou um transhumanista."

A expressão da médica se congelou em um máscara de horror. Considerando que a ocupação médica exige uma reação imperturbável msmo diante de pacientes sem partes do corpo, eu achei aquilo estranho.

"Transhumanismo não está na lista". Ela apontou para a tela do computador e, com certeza, transhumanismo não estava lá. Para dar o devido mérito ao hospital, a verdade é que a lista era muito completa, incluindo tudo, desde xintoísmo, passando por denominações islâmicas e cristãs (não menos que doze variedades!) até wicca.

Até aquele momento, eu estava menos preocupado em conquistar uma posição para as forças da verdade e do bem do que em fazer algo a respeito dos ferimentos na minha mão esquerda.

Sugeri então "Humanismo", como uma alternativa. O transhumanismo é, afinal, um subconjunto desse conjunto maior de pensamento. Tem, é claro, quem diga que você pode tirar o "ismo" do humanismo e não perderá muito na definição. É, pelo menos, algo da mesma família.

Humanismo, surpreendentemente, também estava ausente daquela lista quase enciclopédica. Era hora de usar o mínimo denominador comum.

"Que tal ateísmo?"

Finalmente, os dentes da médica se abriram, sua pele começou a voltar à sua cor normal. Agora, em terreno mais firme e, presumivelmente, de volta ao script, ela terminou a papelada e enviou-me para a sala de curativos.

Como eu estava esperando ser costurado, percebi que o comportamento daquela mulher não era só previsível, mas foi provavelmente uma coisa boa. As pessoas têm medo do que é incomum, o que pode ser algum mecanismo de defesa mental. É esta aversão às coisas novas que ajuda a impedir que as pessoas que se reúnam numa paliçada ardendo em chamas junto com algum novo messias e algumas centenas de armas.

Como, então, explicar em termos simples o transhumanismo?

Bem, transhumanismo é, como mencionei, um subconjunto do humanismo. Todos os transhumanistas são humanistas também. Mas o inverso não é verdadeiro. Pergunte a dez humanistas a opinião deles sobre um assunto e terá com certeza dez visões completamente diferentes e com pouca coisa em comum entre elas. Humanistas “propriamente ditos” nos consideram como sendo otimistas demais para sermos levados a sério.

Os humanistas acreditam que não há Deus, que esta vida é tudo o que existe e o que há de mais precioso. Eles acreditam que todos nós somos pessoalmente responsáveis ​​por nossas ações, boas ou más. A dupla que sempre anda junto "o Diabo me fez fazer isso" e "Deus estava trabalhando em minha vida" não é comum no discurso humanista.

Como resultado disso, eles acreditam que a moral é separada de qualquer imperativo religioso e que as leis derivam da visão comum do que é "bom" e não de inspiração divina. Os humanistas acreditam que podemos mudar a nós mesmos para melhor, e trabalhando juntos podemos mudar nosso mundo para o bem de toda a humanidade.

Como transhumanistas, nós compartilhamos todas essas crenças.

O que nos torna diferentes é uma crença no poder da tecnologia para mudar o futuro da humanidade. Nós apontamos para mil tecnologias que melhoraram a sorte das pessoas e  dizemos: "você ainda não viu nada."

A única coisa que nos faz “trans” humanistas  é a crença de que estamos nos aproximando de um ponto no tempo onde a evolução da humanidade estará em nossas próprias mãos. O conhecimento está aumentando a uma velocidade incrível e cada nova invenção muda o mundo de uma forma tangível.

Assim como a Revolução Industrial mudou o mundo do trabalho manual para sempre e a aurora da Revolução da Informação mudou o mundo da comunicação, a chegada da Revolução Genética vai mudar a evolução futura da humanidade.

A genética avançada irá nos fornecer meios para melhorar os nossos corpos e mentes, poderemos nos tornar maiores, mais fortes, mais rápidos, mais inteligentes. Como se dizia na [série de TV] “O Homem de Seis Milhões de Dólares” (ou “O Homem Biônico”), "Nós temos a tecnologia, podemos reconstruir a ele."

O campo de desenvolvimento da nanotecnologia tem o potencial de inaugurar uma nova era dourada de abundância, onde máquinas complexas são fabricadas de forma milagrosa a partir de ingredientes simples. Poderíamos, em 30 anos, ter um bilhão, bilhões de nanorobôs girando em torno de nossa corrente sanguínea, para reparar os danos. Seríamos quase imortais, algo mais do que humanos. Seríamos transhumanos.

No futuro da humanidade, eu poderia não ter que ir ao hospital. Eu poderia reparar o dano à minha mão simplesmente bebendo um pouco de água com açúcar. Seria uma picada a menos.

É possível, é claro, que estejamos nos iludindo. Visões utópicas são volúveis. Mas veja a coisas por este lado.

Nós não vamos queimar as pessoas na fogueira se elas discordarem de nós.

domingo, 27 de novembro de 2011

Epicurismo, estoicismo, ceticismo, cinismo - filosofias clássicas estão de volta

Por Sheila Lobato publicado originalmente na Revista Planeta

Antigas, sim, mas muito atuais. Epicurismo, estoicismo, ceticismo, cinismo - filosofias clássicas que fizeram grande sucesso bem antes da era cristã - estão de volta. O motivo? Parece que o mundo ocidental cansou das filosofias modernas, em geral pessimistas, niilistas e atormentadas pela falta de sentido da vida e da morte

Quase 2.500 anos depois, as escolas filosóficas que floresceram na Grécia Antiga estão de volta, reinterpretadas, influenciando pensadores e fazendo novos seguidores em todo o mundo.
Mas por que reinterpretadas? Porque, com o passar dos séculos, todas sofreram deformações que mudaram muito o sentido de seus conceitos. O cinismo, por exemplo, não tem nada de cínico ou vigarista: deve seu nome à praça de Cynosarge, em Atenas, onde se reuniam os adeptos da escola, na falta de um lugar construído para esse fim.
(...)
E por que estão reaparecendo filosofias tão antigas? Uma resposta, simples e direta, é que o mundo ocidental cansou das filosofias modernas. É tudo muito complicado, muito difícil, polêmico, contraditório, compreensível somente por iniciados e, mesmo para eles, em boa parte ininteligível.
Quando vislumbram caminhos no meio do matagal, elas acabam levando a becos sem saída. E não dão tréguas à dor: são pessimistas, quase sempre niilistas e atormentadas pela falta de sentido da vida e da morte.
Não há nada disso em nenhum dos grandes autores das velhas filosofias. Epicuro, Diógenes, Zenon de Chipre, Pirro, Sêneca, Marco Aurélio (sim, o imperador romano), Epiteto e outros tinham em comum a clareza e a simplicidade de suas ideias, nem por isso ralas ou reles. Pensavam e ensinavam para as grandes massas. Mas com boa formulação e fundamentação.
(...)
Essas filosofias eram um modo de vida. Não brilhavam por fazer grandes construções teóricas, mas por seus ensinamentos para melhorar a vida de cada um. Eram mais socráticas (“a vida é uma preparação para a morte”), mais pedagógicas que metafísicas. Filosofar não era uma especulação abstrata, um devaneio, mas uma busca por respostas práticas para as questões da vida diária. Nisso residiria a felicidade.

Texto completo: http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/442/artigo144029-2.htm


Opiniões sobre o transhumanismo e sua relação com a religião

Diversas opiniões sobre o artigo de Malcolm MacIver  (Transumanismo: um sandbox secular para explorar o pós-morte?) sobre o transhumanismo e sua relação com a religião. Esses comentários foram originalmente postados aqui. É impressinante a qualidade dos comentários -- dá uma boa amostra da inteligência dessas pessoas. Resolvi traduzir alguns deles e colocar no blog.

Skrim
Eu não chamaria o transumanismo de religião - é apenas uma coleção de idéias unificada pela noção de que devemos transcender nosso estado de evolução natural biológica, que nossas mentes presente e capacidades não são o melhor que podemos fazer.
Eu chamaria o Singularitarianismo (com 'S' maiúsculo) de espécie de sistema de crenças estranhas sobre um evento pontual -- a invenção súbita de uma AGI superinteligente (em vez do desenvolvimento de AIs cada vez mais inteligentes e cada vez mais geral ao longo do tempo) ou upload da mente (em vez de uma sofisticação cada vez maior de tecnologia neural de interfaces que finalmente alcançam a simulação completa da mente) -- que, de repente, mudam tudo para sempre. Ainda não é uma religião em si, mas semelhante em suas origens psicológicas.
Jody
Eu não acredito necessariamente que em 2045 a singularidade ocorrerá, mas sou um transhumanista secular que certamente vê o paralelo entre transumanismo e religião. A maioria das religiões (pelo menos as três grandes) falam sobre a existência humana indefinidamente perpetuada e sobre o "paraíso". Há muito apelo para as pessoas nesta crença da vida após a morte. Acho que não seria ofensivo dizer que um dos maiores atrativos das religiões está nesta idéia de vida após a morte. Bem, nós ateus não acreditamos em religião, mas eu não vejo porque não podemos absorver alguns desses objetivos antigos e universais. Eu gostaria de viver para sempre e em algum tipo de felicidade, eu só não acho que eu preciso morrer e ser julgado por algum tipo de grande mágico no céu a fim de alcançar esse fim. Eu acho que a tecnologia vai fazer isso. A data de 2045 realmente não ressoa muito em mim, mas está dentro do meu período provável de vida, logo, ótimo. Eu certamente apostaria em criônica também. No pior dos cenários, estou morto e minha cabeça está congelado. No melhor dos cenários, (embora eu admita que é uma possibilidade meio remota), ressuscito e continuo a viver em um céu secular. Eu não sei que será o upload, a criônica, transferência para um novo corpo, ou alguma outra ciência imprevisível... mas estou muito confiante de que alguma forma de tecnologia vai ser o meu “deus ex machina”. Isso não é crença irracional na religião -- antes, é uma previsão otimista baseada no progresso da ciência -- mas os paralelos estão aí.
Hank Fox
O desejo consciente de não morrer é uma unidade básica de todos os seres vivos com um cérebro suficientemente grande para ser minimamente auto-consciente. E isso provavelmente tem sido uma constante nas últimas centenas de milhões de anos.
A religião tomou conta da ideia e por isso hoje temos dificuldade de falar sobre o assunto sem esbarrar em idéias religiosas. Somos forçados a abordar a discussão como se a religião tivesse inventado a ideia de amar a vida e sua continuação.
Mas, na realidade, a religião não tem nada a ver com a discussão, exceto que ela é uma das muitas coisas que poderiam ser ditas sobre o assunto.
Transumanismo, como um modelo de pensamento sobre a vida além do período normal de vida humano, não está tentando macaquear a religião. Está tentando solucionar um desejo humano básico, um desejo que precede a religião recém-chegada há alguns milhões de anos.
A religião é a resposta errada. Talvez seja a única resposta que tivemos por muito tempo, mas a religião não nos aproximou nem sequer um passo das soluções reais e, de fato, ela esteve atrapalhando as respostas reais durante toda sua existência.
Em um momento histórico em que temos uma chance de respostas reais, a religião ainda se coloca no caminho, no sentido de que não podemos sequer falar sobre o assunto sem ter de lutar imediatamente com a ideia tola de que tudo começou com a religião, e qualquer nova resposta tem de ser expressa em termos religiosos.
É como se você tivesse um bebê depois de anos possuindo gatos de estimação e seus amigos insistem que você está apenas tentando substituir seus gatos e o bebê é realmente apenas uma versão pobre de um gato. Quando a verdade é que talvez, pela primeira vez, você está feliz por ter algo DIFERENTE de um gato, algo maior, mais real e mais alegre.
Logan
(...)
Eu diria que eu sou um transhumanista (mas agnóstico sobre a sngularidade), e geralmente apoio os esforços para "curar" ou reverter o envelhecimento e eu gostaria de viver mais tempo do que uma vida humana normal, se eu pudesse, mas isso não significa que eu tenho pavor existencial sobre a morte ou quero evitá-la para sempre. Honestamente, não vejo valor na imortalidade ou na vida por dezenas de milhares de anos. Havia um antigo filósofo grego cujo nome não me recordo que dizia "onde a morte está, eu não sou. Onde eu estou, a morte não está"; por que então (esqueci o resto da citação) que eu deveria temer algo que por definição não posso experimentar? É como ter medo de um sentimento insensível. Medo de como se vai existir durante a sua inexistência. O processo da morte em si provavelmente desagrada, mas, o que posso fazer?
O medo da morte não pode ser superado apenas pela lógica, mas esse é um bom inicio, tanto quanto como os ateus pensam e sentem sobre a morte. Entre os ateus, há uma boa dose de estoicismo em face do inevitável e contentamento com a quantidade limitada de tempo (se é 20 anos ou 200 anos ou 2000 anos) que você tem que viver. Veja, por exemplo, o último capítulo do livro de Ronald Aronson "Viver Sem Deus". Há também uma boa entrevista estendida entre Richard Dawkins e Dan Dennett em que eles falam sobre a beleza da ciência e as perspectivas naturalistas sobre a morte (acho que foi no documentário "Genius of Charles Darwin" de Dawkins).
Não, a razão pela qual eu apoio o transumanismo e a pesquisa anti-envelhecimento é porque é apenas uma extensão dos princípios e objetivos da medicina (e da vida em geral) nos quais todos nós estamos de acordo: aumentar a qualidade e a quantidade dos anos que estamos vivos para o maior número de pessoas. Não há conflito necessário entre esta perspectiva e a perspectiva do estoicismo/contentamento; arriscando um clichê, eu diria que se trata apenas de reconhecer quais condições você pode mudar e quais você não pode.
Cassini (comentando Malcolm MacIver e  Logan)
Sobre o excelente texto de Malcolm MacIver eu diria o seguinte: mais do que nos permitir falar sobre a morte, o transhumanismo nos permite (e nos incita) a fazer alguma coisa em relação a ela.
Sobre os argumentos de Logan e a citação grega de que não há sofrimento, não há dor, não há nada na morte, eu diria que o problema é que essa racionalização filosófica para mim erra o alvo, que é a vida e nosso desejo de viver. O problema está na sombra que a morte lança sobre a vida, uma espécie de depleção de sentido capaz de minar boa parte de nossas energias para levar uma vida alegre e lutar, realizar sacrifícios, por aquilo que elegemos como nossos objetivos (e até mesmo para escolher objetivos).

Jody
Eu sou ateu, e tenho medo da morte. O pensamento de deixar de existir é horrível para mim, e não acho contentamento nele. Eu só não o temo o bastante para tornar-me irracional e passar a acreditar em magia. Mas eu sou um transhumanista porque eu quero evitar a morte -- ou, como alguns transumanistas dizem, a morte “não voluntária". Eu não acho que a morte, especialmente a morte de uma consciência humana, seja algo bom, nobre ou necessário. Eu acho que é algo a ser derrotado.
Matt Brown
Tenho pensando muito sobre a relação entre transhumaismo e religião tradicional e quanto mais eu penso, mais em comum eles parecem ter. Agora devo dizer que sou ateu e, como regra geral, vejo a religião como ultrapassada na melhor das hipóteses, mas parece óbvio que a religião, ou um análogo a ela, ainda serve a um propósito na sociedade moderna.
O problema com estes tipos de discussões começa com a definição do que exatamente é uma religião. Se aceitamos a definição de um sistema que envolve a adoração de deuses e deusas, um conceito do sagrado e do profano, e os enfeites de cerimônias religiosas, então, obviamente o transhumanismo não se encaixa nisso. Mas a religião tem tido muitas definições e nem todas eles são tão restritivas. Se aceitamos a definição de religião como uma visão de mundo que tenta responder a algumas das questões profundas que os humanos têm sobre a nossa própria existência (por que estamos aqui, qual o propósito que minha existência tem, etc.), a diferença entre os dois tornam-se cada vez menos e menos aparente.
Dito isso, eu não acredito que transumanismo é uma religião, mas eu tendo a concordar com o autor do texto que ele permite que os secularistas tenham uma porta para falar sobre a morte e significado. Na verdade, vou iria um passo além e diria que eu acredito que o transhumanismo está cumprindo em grande parte a mesma finalidade o mesmo que a religião faz, só que para as pessoas seculares. Os seres humanos ainda buscam de sentido para suas vidas e o transhumanismo pode ser apenas mais um canal para essa busca.
Malcolm MacIver
@ Jody - Acho que às vezes tentamos romantizar a morte e sua importância na renovação davida como uma forma de confortar-nos sobre isso, mas eu concordo com grande parte de sua opinião. A vida é fantástica -- já a morte e a estrada longa e dolorosa de declínio cognitivo e físico que nos levam a ela é tudo, menos isso.
Marjorie Kaye
Curiosidade responde por grande parte do meu interesse no transhumanismo, assim como o medo da morte. Até recentemente, ou você aceitava seu destino como uma criatura finita, ou se você fosse religioso, esperava (pelo menos se você estivesse no lado direito da equação pecado/virtude) que o seu padre/rabino/imam/ministro estava certo e havia algo grande do outro lado. Ou... você poderia congelar sua cabeça depois de sua morte e ter esperança (um pouco bruta para mim).
Essas eram as opções. Quando eu li o artigo deKurzweil sobre upload da mente em 2000, aquilo realmente me intrigou. Eu não sou um cientista, apenas curiosa. Eu quero saber se algum desses 400mil planetas tem algo ou alguém interessante. Eu gostaria de ver como as coisas serão no meu planeta natal, experimentar uma ou mais páginas da História do Homem (e da Mulher), talvez mais um capítulo inteiro, algo que estava anteriormente fora do alcance depois de setenta anos ou mais nesta terra.
Kurzweil descreve a maravilha de viver em um ambiente virtual, incluindo a escolha de sua aparência física de Lady Gaga ou Michael Jackson, se você é tão inclinado e cantar. Michael Asimov acha que versões digitais de nós irão se relacionam entre si em um nível mais profundo e complexo. Mas de acordo com o autor John Gray, estamos enganando a nós mesmos e faremos algo pior que vamos cópias imperfeitas de nós, levando todas as nossas fraquezas e conflitos conosco no ciberespaço. Talvez Gray esteja certo, mas valeria apena fazer o teste, ainda que seja para ficar por aqui um pouco mais. Em última análise, acredito que todos nós iremos querer saber o que realmente está por vir. Iremos nos libertar de qualquer pretensão de controle e seguiremos o fluxo.

Transumanismo: um sandbox secular para explorar o pós-morte?

Publicado originamente por Malcolm MacIver  no blog Science Not Fiction

Eu sou um cientista e acadêmico durante o dia, mas, à noite, sou cada vez mais chamados para falar sobre transumanismo e a singularidade. No ano passado, fui assessor de ciência de Caprica, uma série que explora as relações entre seres digitais e pessoas reais. Alguns meses atrás, participei de um painel público sobre "Mutantes, androides e ciborgs: a ciência dos filmes da cultura pop" para a filial de Chicago da NPR, a WBEZ. Esta semana ela traz um painel do diretor de Guilds of America, em Los Angeles, intitulado "A Ciência dos ciborgs" sobre a interface de máquinas para sistemas nervosos vivos.
O mais recente painel para ser adicionado à minha lista é uma discussão sobre a primeira ópera transhumanista de Tod Machover, "Death and the Powers". A ópera é sobre um inventor e empresário, Simon Powers, que está se aproximando do fim de sua vida. Ele decide criar um dispositivo (chamado “o Sistema”) que permite a ele fazer o upload de si mesmo (humm... será que isto lembra a vida de alguém que conhecemos?). Depois do segundo ato, todo o conjunto, incluindo uma série de robôs de ópera e um lustre musical (criado no MIT Media Lab), torna-se a manifestação física do agora incorpóreo Simon Powers, que ainda ouvimos cantar, mas que desapareceu do palco. Grande parte da ópera explora suas relações com sua filha e mãe aós o upload. Sua filha e esposa se perguntam se o sistema é realmente Simon Powers. Eles se perguntam se devem seguir os seus fundamentos para se juntar a ele, se a vida ainda terá sentido sem a morte. O libreto, do renomado Robert Pinsky, transforma estas perguntas em bela poesia. Ele vai estreiar em Chicago em abril.

"Eu não acho que o transumanismo está tentando ser uma religião: eu acho que ele está dando aos secularistas (como eu) uma oportunidade de falar publicamente sobre a morte, a vida após a morte (...). É deixar-nos explorar com segurança essas ideias de uma forma menos sombria do que a típica narrativa da “carne para os vermes” em que os secularistas estão geralmente limitados."

 
Essas experiências têm sido fascinantes. Mas eu não posso deixar de me perguntar, o que significa todo esse interesse repentino no transumanismo e a singularidade?

A mídia está tão saturada com a alegação de que a singularidade vai chegar em 2045 que os céticos já se posicionam na defensiva. Vale notar em meio ao rancor um resultado recente do meu amigo e colega Konrad Kording, que mostrou que o número de neurônios que podemos gravar simultaneamente segue a Lei de Moore. Não muito tempo atrás, estávamos limitados a gravação da atividade de uma única célula cerebral de cada vez. Mais recentemente, fomos capazes de gravar várias centenas de uma só vez. Quando você examina a tendência de 56 estudos diferentes, Kording e seu aluno mostraram que o número está dobrando a cada sete anos. Embora este seja um intervalo maior do que a Lei de Moore (duplicações a cada dois anos), o que é realmente importante é que o crescimento é exponencial. Crescimento exponencial está no cerne dos argumentos para a proximidade da singularidade. Considerando o resultado de Kording, no entanto, quanto tempo você acha que precisaremos para conseguirmos gravar a atividade de todos neurônios no cérebro simultaneamente? Você pode se assustar: mesmo com esse crescimento exponencial incrível, levará 220 anos. Se o upload de nossa consciência implica-se, no mínimo, a gravação do padrão de atividade de todo o cérebro (o que não é menos plausível do que todos os argumentos por aí), então não vamos resolver isso até 2231.

É claro que o tempo da singularidade não é o momento em que podemos fazer upload de consciência, mas quando criamos máquinas superinteligentes (que, segundo alguns, se dedicariam a descobrir como derrotar o envelhecimento e fazer upload de nossa consciência, ao invés de nos perseguir até os confins da galáxia). Se o ano 2045 é razoável, isso é muito discutível. Eu espero que esta data não demore mais de um século ou algo assim, mas como alguém que muitas vezes pensa em escalas de tempo evolutiva, eu ainda vejo isso como uma quantidade insignificante de tempo.

Mas e se compararmos as evidências sobre quando a singularidade irá ocorrer com as evidência de destruição ambiental (como a de que agora estamos excedendo três de dez "fronteiras planetárias" para a existência humana sustentável), é muito claro que essas ameaças à nossa existência como espécie estão se aproximando muito mais rápido no horizonte do que qualquer a singularidade ou imortalidade por upload.

Então, o que está acontecendo? O ambientalismo está "extenuado" e o transumanismo "ligado"? O transumanismo é apenas um novo fascínio fugaz, assim como a colonização do espaço foi há algum tempo, também passará em breve? Ou há algo mais original está acontecendo?

Enquanto eu refletia sobre essas questões, recentemente, ocorreu-me que talvez a tendência transhumanista tem algo a ver em fornecer às pessoas seculares, tais como cientistas, engenheiros e fãs de ficção científica, ferramentas para falarem de coisas que as pessoas religiosas já possuem há muito tempo.

Considere isto: Scott Atran, entre outros, tem argumentado que o impulso para a religião tem uma base evolutiva, enraizada em nossos medos da morte e de predadores. Desde Darwin, se não antes, tornou-se cada vez mais difícil, porém, para pessoas de espírito científico colocar suas fichas na religião. Somado a isso, é difícil ter conversas em público sobre religião, até porque vivemos em uma sociedade multi-denominacional, onde a manifestação pública da crença pode ser vista como excludente. Simplesmente não é politicamente correto em muitos casos. E se o motivo da rápida disseminação da singularidade e do transumanismo consistir em dar às pessoas de pensamento secular uma saída para falarem de seus medos da morte e sonhos de imortalidade?

Muito tem sido escrito sobre as relações entre religião e transumanismo. Muitos têm visto paralelos entre transumanismo e religião. Mas eu não acho que o transumanismo está tentando ser uma religião: eu acho que ele está dando aos secularistas (como eu) uma oportunidade de falar publicamente sobre a morte, a vida após a morte e sobre os estranhos enigmas da identidade pessoal que um dia surgirão da transformação de nós mesmos em ciborges, cópias originais de nós mesmos ou seres totalmente digitais (o que eu tenho explorado aqui, aqui e aqui). É deixar-nos explorar com segurança essas idéias de uma forma menos sombria do que a típica narrativa da “carne para os vermes” em que os secularistas estão geralmente limitados. Ao fazer isso, talvez seja preenchido um vazio que a religião costumava preencher, mas já não consegue fazê-lo, para muitos de nós.

Malcolm MacIver é um bioengenheiro na Northwestern University que estuda as bases neurais e biomecânicas da inteligência animal. Ele presta consultoria para filmes de ficção científica (“Tron Legacy”, “The Avengers” de  Joss Whedon) e foi o conselheiro científico de Caprica. Ele estuda Inteligência Artificial e robótica não ficcional.